Após quem torna a si
E primeiro mata ou morre
Não corre o do Vale assi,
Que após um tolo assim corre.

E vae nomeando uns patifes que andavam a salvo, um Bastião, um Ribeiro, personagens que se faziam respeitar pela valentia ou pelo dinheiro.

Depois de muitas maximas de san moral, o poeta volta-se para o governo e exclama:

Executores da lei,
Havei vergonha algum dia!
Este chama: Aqui dei rei!
Este outro chama a valia.

Ora o fecho da satyra, que é o mais pungente della, está deturpado na composição negligente das impressões que conheço, dêste feitio:

Outro chama: Portugal!
De varas não ha e mingua.
Desata a bolsa, que val.
Traze sempre alada a lingua.

Com esta construcção, assim aleijada, a satyra penetrante fica de todo deslusida e estragada. Para que os equivocos flagelladores resaltem do jogo das palavras de accepção dupla, a reconstrucção deve ser esta:

Outro diz: em Portugal[1]
De varas não ha hi mingua;
Desata a bolsa, que Val
Traz sempre atada a lingua.

[1] Neste verso adoptei uma variante que se encontra na ultima edição das poesias de Sá de Miranda.

É claro o intuito mordaz do poeta. Manda desatar a bolsa. Procede uns bons cincoenta annos o Put money in thy purse de Shakespeare. O poeta inglez, pela bôcca perversa do honest Iago, mandava encher a bolsa; o portuguez manda desatal-a depois de cheia; é a mesma ideia. Desata a bolsa, diz elle, porque o Valle, o alcaide de Lindoso, quando o amordaçam com dinheiro,