Traz sempre atada a lingua.

O verso é máu; mas Sá de Miranda visava principalmente a fazer boa philosophia, e contentava-se em alinhavar versos conceituosos em prosa chan; por isso mofava delle o Camacho, na Jornada do Parnaso, taxando-o de

Poeta até o umbigo, e os baixos prosa.

Seja como fôr, dos dezenove alcaides de Lindoso nenhum outro se gaba de ter o seu nome registado na obra do grande mestre da Renascença lyrica da Peninsula.


Não sei se é notorio em Portugal e nomeadamente no Chiado e Clerigos que uma senhora, nascida e educada na Allemanha, e residente não ha muitos annos no Porto, publicou em 1885 uma edição das Poesias de Francisco de Sá de Miranda, impressa em Halle. É um volume em 8.º fr. de 1085 pag.; a saber CXXXVI que comprehendem a biographia do poeta, a topographia de Carrazedo de Bouro, da quinta da Tapada, do solar de Crasto, e a noticia particularisada dos codices manuscritos e das edições impressas que a illustre escritora manuseou. As 946 paginas restantes comprehendem as poesias conhecidas e as ineditas colhidas de varios manuscritos, repartidas em quatro secções; e na secção ou parte 5.ª encontram-se todos os poemas dedicados a Sá de Miranda. Na margem inferior de cada pagina inscreve a sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos as variantes dos codices conferidos, e nas Notas, que começam a pag. 739, entra s. ex.ª na parte critica do seu valioso trabalho, desenvolvendo raros e copiosos conhecimentos da literatura portugueza dos seculos XV e XVI, e da vida intima dos seus poetas.

Referindo-se á satyra de Sá de Miranda, cujos fragmentos trasladei, escreve a illustrada senhora a pag. 754: As allusões a um da Vale... já não podem ser decifradas. Seria assombroso que s. ex.ª conseguisse exhumar da poeira dos cartapacios genealogicos de Guimarães aquelle Christovão do Valle, alcaide infesto ao serviçal do poeta. Quantas gerações de leitores da carta do commendador das Duas Egrejas terão passado inconscientes por sobre aquellas allusões!

Nas notas, porém, da sr.ª D. Carolina de Vasconcellos ha lances de investigação historica tão penetrantes e intuitivos que dão muito a esperar, se os seus estudos nos baldios ingratos da archeologia literaria não desanimarem arrefecidos pelo desaffecto que os portuguezes manifestam pelo archaismo.

Aqui se me offerece um exemplo de lucida exploração investigadora no livro admiravel desta senhora. Na Carta V de Sá de Miranda a Antonio Pereira (pag. 237), o poeta, referindo-se ao solar dos Pereiras, escreve:

Do qual irão ha muitos annos
Um que aqui Braga regeu,
Pondo aparte os longos panos,
O passo dos castelhanos
Á espada o defendeu.