Commentando estes versos, explana a sr.ª D. Carolina de Vasconcellos (pag. 806): Julgamos que se trata do avô do grande condestavel, i. é de D. Gonçalo Pereira que regeu Braga como arcebispo no meado do seculo XIV. Quando o infante D. Pedro invadiu em 1354 as provincias de Entre Douro e Minho e Traz-os-Montes acompanhado de seus cunhados D. Ruy de Castro e D. João de Castro foi ao seu encontro o arcebispo de Braga, que o havia advertido em tempo dos sinistros projectos de D. Affonso IV. O prelado apresentou-se como medianeiro para acalmar a contenda, e desviou o colerico infante do Porto...
Esta exposição tem equivocações. S. ex.ª como logo veremos, corrige alguns enganos com muita boa critica historica; outros, porém, que não emenda, pedirei licença para os apontar. O infante D. Pedro não invadiu a provincia de Entre Douro e Minho em 1354. Ignez de Castro foi assassinada em 7 de janeiro de 1355. A rebellião do filho contra o pae começou nesta ultima data e terminou em 6 de agosto do mesmo anno, pelas pazes feitas em Canavezes. Quanto aos irmãos de Ignez: ella não teve algum que se chamasse João ou Ruy. Teve dous: um, seu irmão inteiro, chamou-se D. Alvaro Pires de Castro, que foi conde de Arrayolos e condestavel; o outro, seu meio irmão, chamou-se D. Fernando Rodrigues de Castro. Além destes irmãos, teve uma meia irman, D. Joanna de Castro, que, depois de viuva de D. Diogo, senhor de Biscaia, casou com D. Pedro, o Cruel, rei de Castella, depois da morte de Maria Padilha.
Quanto ao arcebispo D. Gonçalo Pereira, considerado por todos os escritores nacionaes e estranhos que ha mais de dois seculos tratam a historia portugueza no seculo XIV, pacificador na guerra civil consecutiva á morte de Ignez de Castro, emenda a sr.ª D. Carolina de Vasconcellos (pag. 882): O arcebispo de Braga, D. Gonçalo Pereira, jaz sepultado numa capella annexa á Sé de Braga, onde na inscripção tumular se lê ter elle morrido no anno de 1348. É, pois, impossivel que a lenda sobre a sua intervenção nas luctas de D. Pedro, o Justiceiro, e de Affonso IV (1354) seja veridica.
Conjectura depois a reflexiva escritora se o poeta alludiria á intervenção do arcebispo nas pazes entre o infante D. Affonso IV e seu pae D. Diniz, ou á concordia que o mesmo prelado restabeleceu entre Affonso XI de Castella e Affonso IV de Portugal.
Estas hypotheses suggeriu-lh'as o Nobiliario do Conde D. Pedro, editado por A. Herculano, pag. 285. Não póde, todavia, prevalecer alguma dessas conjecturas da excellente commentarista; porquanto Sá de Miranda, nas suas trovas, não trata de pazes; é de guerra, e á ponta da espada com castelhanos:
Um que aqui Braga regeu
Pondo aparte os longos panos
O passo dos castelhanos
Á espada o defendeu.
Daqui a pouco, espero conseguir que s. ex.ª acceite o facto historico, desembaraçada de hypotheses, como elle se acha escrito nos antigos livros portuguezes.
Quanto á morte de D. Gonçalo Pereira emendou s. ex.ª um descuido repetido por todos os historiadores desde Manuel de Faria e Sousa e D. Rodrigo da Cunha, que tambem faz D. Gonçalo contemporaneo de D. Pedro I, já reinante.
A data da morte do arcebispo em 1348 não era extranha para mim, quando em 1874 escrevi: "Em 1347 foi D. Gonçalo visitar a provincia transmontana. Chegando a Villa Flor com grande sequito, travaram-se alli os seus criados com os moradores da terra, e de ambas as partes belligerantes morreram quatro homens e sahiram doze mal-feridos. Tangeram os sinos a rebate. Levantou-se a povoação armada. Cercaram a residencia do arcebispo, mataram-lhe seis homens, e matariam o proprio prelado, se não fugisse, pendurando-se de uma corda, que lhe não evitou cahir de costas no terreiro e contundir-se gravemente. Não contentes os de Villa Flor com a fuga do seu arcebispo, tomaram-lhe as malas, de envolta com parte dos capellães e seis criados. Protegido por atalhos, o contuso prelado chegou a Carrazeda de Anciães, povoação importante naquelle tempo, fortificou-se no castello, fez lavrar instrumento publico, e enviou-o a D. Affonso IV. O rei, poucos dias depois, mandou a Villa Flor uma alçada com dois algozes bem escoltados, e fez enforcar os sacrilegos que poude colher na devassa. Esta vingança nem por isso alliviou os incommodos do arcebispo descadeirado na quéda. Transferido a Braga, deitou-se para nunca mais se erguer. Quatro mezes depois adormeceu no Senhor." (Noites de insomnia, n.º 5, pag. 91 e 92).
Neste mesmo artigo, commemorando as proezas do avô do condestavel D. Nuno Alvares, escrevi: Fôra elle ainda quem acaudilhára a hoste de portuguezes, quando uma invasão de hespanhoes, em desapoderada fuga, deixou o sangue de tresentas vidas nas lanças dos alabardeiros do arcebispo. (Ib. pag. 92).