Aqui tem s. ex.ª a façanha que o Sá de Miranda celebrou na sua carta a um dos descendentes do prelado guerreiro; e para que a illustre escritora a conheça de melhor auctoridade que a minha, aqui lhe dou o traslado de chronista antigo: "Por estes annos, entraram por ordem de el-rei D. Affonso onzeno de Castella pelo reino de Portugal, com mão armada, D. Fernando Rodrigues de Castro e D. João de Castro seu irmão, capitães do reino de Galliza, roubando, desbaratando quanto achavam, com muita gente de armas, até chegarem á cidade do Porto, e fazendo todo estrago que podiam sem acharem resistencia, estando juntos nella o bispo D. Vasco, e D. Gonçalo Pereira, arcebispo de Braga, que antes fôra Deão do Porto, e o Mestre de Christo D. Frei Estevão Gonçalves refizeram 1:400 homens entre infantes e cavallos, com os quaes os contrarios não quizeram cometer peleja; e voltando as costas se foram recolhendo com a preza que levavam; mas seguindo-lhe os portuguezes o alcance lhe fizeram largar tudo, e custar a retirada mais do que cuidavam, até que com morte de D. João de Castro e outros muitos soldados se foram recolhendo a Galliza: foi isto na Era de 1374, anno de Christo 1336..." (D. RODRIGO DA CUNHA, Cathalogo dos B. do Porto, pag. 96, ediç. de 1742).
Não nos restam, pois, incertezas quanto ao feito de armas encomiado por Sá de Miranda; e de todo em todo, á vista do anno em que falleceu o arcebispo, irrefutavelmente fixado pela sr.ª D. Carolina Michaëlis, é excluido aquelle prelado da intervenção que os historiadores e até modernos dramaturgos lhe dão nos successos posteriores á morte de Ignez de Castro.
Mas, donde procede essa confusão dos historiadores? Quem é o sacerdote Pereira que defendeu o Porto da invasão do infante D. Pedro em 1355? Vamos conhecel-o.
Assim como leu a pag. 285 do Nobiliario do Conde D. Pedro, se a sr.ª D. Carolina de Vasconcellos lesse a pag. 286, achava a decifração do enigma. Ahi nos conta o continuador do conde de Barcellos (digo continuador, porque D. Pedro fallecido em 1354, não podia referir factos occorridos em 1355) que o defensor da Villa do Porto, não fortificada, foi D. Alvaro Gonçalves Pereira, filho do arcebispo D. Gonçalo. Não foi portanto, o pai; foi seu filho, o prior do Crato, pai do condestavel D. Nuno. E por que o texto do Nobiliario tem uma concisão engraçada e pittoresca não será desagradavel ao leitor conhecel-o. Vai textualmente: Este Prior D. Alvaro foi o que pos os pendões por muro, estando na villa do Porto para a guardar por mandado del-rei D. Affonso IV, porque o Infante D. Pedro andava alçado del, queimando e destruindo muitos logares do Reino, fazendo mal e danando a Diogo Lopes Pacheco, a D. Gil Vasques de Rezende e a Pero Coelho e a todos os que el culpava que foram conselheiros na morte da infanta D. Ignez de Castro, que citei seu padre matou, e a villa do Porto não era murada em aquelle tempo, senão em poucos logares de máo muro, e o Prior D. Alvaro fez muros de pendões das náos que ahi estavam, chantando as hastes delles pelo campo a redor da villa, e percebendo (industriando) suas gentes como defendessem os pendoens. O Infante D. Pedro esteve ahi em cerca da villa 16 dias com grande poder de fidalgos portuguezes e de Galiza. Estes fidalgos desejavam muito cobrar a villa por a riqueza della. Isto durou até que chegou El-Rei D. Affonso IV, e o Prior D. Alvaro entregou-lhe sua villa, e alguns disseram que o Infante se soffreu de combater a villa por honra do Prior D. Alvaro. A verdade assim pareceu, que o Prior D. Alvaro, como entregou a villa a seu senhor El-Rei começou de andar em preitezias (negociações) entre El-Rei seu padre e aveo-os (avençou-os) e fez-lhe dar a sua quantia de maravedis que seu padre lhe tinha alçada (suspensa) e fez-lhe dar o condado ao Infante D. João seu filho, e outras muitas mercês... etc.
Ahi está o facto historico. A correcção reconstituinte da sr.ª D. Carolina de Vasconcellos e os esclarecimentos que ouso offerecer-lhe serão bastantes para expungir das historias patrias que por ahi correm a intervenção lendaria do arcebispo de Braga na guerra civil de 1355? Talvez não. Ha erros enkistados que nenhum bisturi de critica desarreiga.
Recopilando as impressões que recebi do livro da illustrada alleman: a biographia de Sá de Miranda, expurgada de inveterados erros, está primorosamente redigida. A minudenciosa visita de s. ex.ª ao Castro e á quinta da Tapada revellam o amor com que a auctora estava possuida do seu assumpto. As reflexões philologicas rescendem um sabor germanico de que em Portugal decerto não achou exemplos. A linguagem, a despeito de quasi imperceptiveis incorrecções, parece ter sido estudada nos melhores mestres desde os primeiros alvores da sua educação literaria. Desata problemas invencilhados de genealogias; restitue a uns poetas obras attribuidas a outros; gradua o quilate dos diamantes que lapida sob o esmeril da critica mais esclarecida. Cotteja factos contemporaneos dos poemas, para lhes averiguar a ideia ou a allegoria. Prodigiosa paciencia e rara vocação por tanta maneira divergente da nossa indole superficial em averiguações desta natureza!
Devemos, portanto, á insigne escritora a primeira edição digna do grande e quasi olvidado poeta. Devemos-lhe além disso ter feito mais conhecido e apreciado do que era em Allemanha o grande luminar donde promanaram discipulos como Antonio Ferreira, Diogo Bernardes, Andrade Caminha, e a pleiade de seiscentistas que formam com Luiz de Camões a idade aurea da literatura portugueza.
Com o livro estimavel da illustrada escritora será mais lido em Portugal Sá de Miranda? Envergonho-me de confessar que não. S. ex.ª achou-me exaggerado quando eu disse, que na minha terra se conhecia o poeta Sá pelas charadas. "Sou poeta portuguez-I. Poeta portuguez com uma syllaba? É por força Sá."
Insisto em teimar, minha senhora, que, quando a transcendente idiotia das charadas cahir no abysmo do ridiculo, apagar-se-ha de todo o nome do poeta. E, quando isso succeder, folgará grandemente a alma rancorosa de Christovão do Valle, ex-alcaide de Lindoso, que está, pelo menos, no purgatorio expiando a perseguição que fez ao innocente gallego, vingado pela satyra do seu immortal patrão uzurariamente.