Nem d'outra lei precisamos. Cumprir a tarefa d'este momento é cumpril-a na sua fórma rigorosa, correspondendo ao destino d'elle entre todos os movimentos de que se compõe a duração eterna.—O fim do Homem é ser homem. E, para o ser, viver segundo a nós, ao nosso fim, que mais se precisa que seguir a lei humana? É a nossa affirmação. A força que a determina não lhe vem de fóra, d'alguma mão escondida entre as nuvens gloriosas d'algum ceu inatingivel. De dentro vem, como as folhas do lyrio, que se abre, vem todas do botão que as continha em suas dobras, como todos os{27} suspiros vem do coração que deseja, e não do objecto que os accorda.
É o seu trabalho quem cria os absolutos que depois a esmagam. Mas a força primitiva reage; e os espectros caem por terra estalados os braços com que tentavam suffocal-a.
As revoluções, os cultos, os systemas, as philosophias, as revelações não são principios exteriores que dominem a historia, de cima, da altura de suas verdades determinando os sentimentos, os desejos, as crenças, a vida emfim. Pelo contrario.—São apenas evoluções d'um interior, que os cria e destroe, e faz o novo templo com as minas do templo antigo, e se chama Natureza.
O Deus da Humanidade é o mesmo homem: e o seu Ideal, a religião da Vida.{28}
V
É a negação do absoluto e, como tal a affirmação do homem.
O Deus sae da immobilidade do symbolo inalteravel: faz-se vida, move-se—é um Deus progressivo.
O seu dogma (semelhante á fonte nascida da terra e de continuo acrescentada) dia a dia o vai o tempo completando com tudo o que lhe sai do seio vasto e fecundissimo. É o culto de um misterio que descobrindo-se sempre, jamais se poderá ver todo. E a Biblia tem brancas as ultimas paginas, para que lhe possa cada geração nova escrever lá o verso d'oiro de cada novo Evangelho que se revelle.
Religião doce e humana, que não despreza uma palavra de creança, o sonho d'um coração de mulher, o presentimento da mais humilde consciencia!{29} É como o olho do sabio que se esquece horas sem conto na contemplação do mais estreito calice d'uma flor sem nome d'esses campos! No calix da flor, diz o poeta, se encerra a belleza toda do universo—e que profundos e desconhecidos thesouros de belleza e verdade não guarda o coração d'um simples?!...
É por isso que esta religião abraça no seu circulo maravilhoso a alma toda e toda a vida como o sol do meio dia vê quanto rasteja na terra e quanto paira nas alturas—porque não despreza ninguem. Como Jesus entre as crianças aprende tanto quanto ensina. Missiona, e recebe todavia lições do mais humilde catechumeno. O seu decalogo tem uma margem larga bastante para que o povo o commente, quando não acrescente um artigo á lei. É a religião do movimento—o Colombo dos mundos encobertos do espirito erecto na proa do galeão,{30} sondando o horisonte com os olhos, incitando, animando todos para a conquista do desconhecido. Sentado na tripode santa da sua inspiração, sente correr-lhe n'alma o espirito do Deus vivo: profetisa, improvisa de continuo e, como a chuva de perolas da bocca da fada legendaria, lhe caem dos labios as palavras nunca interrompidas da sua revellação—a lei, o ideal humano.