VI
A Edade Media não comprehendeu isto. Seu grande genio, sublime como Poesia, achamol-o aqui estreito e acanhado como Rasão. Porque do chão saío um dia essa flor maravilhosa, a mais bella entre todas no jardim do espirito, chamada unidade, pareceu-lhe ter morrido{31} a força geradora da terra e tornar-se impossivel outra florescencia, outra primavera, outro perfume.
Deu por concluido o trabalho das criações humanas, e fechado o cyclo dos poemas divinos chamados religiões. Declarou o coração incapaz de novos sonhos, a alma inerte para mais desejos, a intelligencia morta para outras concepções e outras fórmas que não fossem as suas—porque no ardor de sua fé, uma nobre illusão lhe fez ver o vacuo e o nada além do espaço que abrangia a sua vista halucinada. Grande e solemne dentro do templo santo da sua crença por isso mesmo desprezou o resto da terra aonde já se não avistava esse prodigioso edificio, e o resto da alma que o calor d'esse raio d'amor não aquecia. As tristes flores d'esse deserto não eram para adornar o seu altar—não era digno do seu Deus o perfume saído d'um{32} coraçao não alumiado pelo brilho de sua gloria... Fez o Dogma e fechou-se n'elle como n'um sepulcro. Largo sepulcro, em verdade, como para um Deus e todo marmores e oiro... mas ainda no tumulo de Christo, o frio que se sente é sempre o frio da morte!
A antiguidade pagã dava ás suas religiões um cinto elastico, para que a Virgem podesse crescer e engrossar, fazer-se mulher e mãe, conceber e criar o filho que lhe havia de succeder. Como as não revellava nenhuma voz encoberta, saíndo do meio das nuvens de fogo d'uma gloria sobrehumana—revellavam-se ellas por si, em toda a parte, em cada hora, e não já no cimo deserto do Sinai, mas em baixo, no valle, onde se assentam as tendas do povo, no ajuntamento dos homens. Por isso não havia palavra murmurada no meio da multidão, que se sumisse esquecida, que um deus amigo{33} não ouvisse e decorasse, como ensino d'uma bocca humilde, mas nem por isso despresivel. A onda mais imperceptivel, nascida nos ultimos confins da sociedade trazida com o sopro do vento, achava sempre uma doce praia aonde depositar o seu pequeno tributo, um canto, uma espuma branca, uma rara flor muitas vezes.
Cada modesto veio d'agua lá ia dar sempre ao lago d'essas religiões tão humanas, que não se pejavam de os receber, com elles crescer e alargar, ser por elles formado—fazendo assim a divindade com o melhor e o mais puro da humanidade. Essas religiões formavam-nas em collaboração as almas das gerações successivas, cada uma como que tinha de mais intimo em si, do mais elevado ao mais innocente. O sabio dava o forte pensamento, o simples a intuição profunda. Emprestava-lhes um facto o{34} heroe, e a virgem lançava-lhes no regaço uma lagrima de piedade. A praça publica lhes enviava um echo de seus rumores, e a familia um reflexo amoravel do seu lar. Cada qual tirava do coração a perola que lá tem todos escondida; e com essas gemmas, preciosas, quentes ainda e quasi vivas, se adornava a divindade. As paixões, os amores, os cuidados, as lutas dos homens, tudo isto idealisado e puro se via brilhar sobre o peito dos deuses, como penhor da fraternidade entre terra e ceu, e modelos de perfeição que buscava cada qual realisar. Ser bom e forte e grande para ser semelhante a um Deus—porque este era a ultima expressão da humanidade.
Era ella o que a criava. Ao lado da inspiração do augur caminhava a espontaniedade do Povo.
Ella transformava a legenda; desenvolvia a moral; compunha o rito: adoptava{35} cultos; erguia outros deuses ao lado senão sobre o pedestal dos antigos; vereficava a lei velha com o espirito novo: tinha autoridade em fim, autoridade, voto e força para obrigar um Deus progressivo a medir seus passos pelos d'uma sociedade sempre em movimento. Por detraz do Olympo havia muito ceu ainda e muito espaço. Alem da morada das divindades via-se o infinito sem termos—e Prometheu prophetisando a queda de Jupiter não era um impio; era um semi-deus. As religiões antigas não faziam da alma humana (e, com a alma as sociedades e o mundo) prisioneira d'um dogma immutavel. Sentiam ser ella mesma o verdadeiro dogma. Abriam o seio a cada palavra inspirada e transformavam-na em sangue do coração...
Religiões humanas! uma intuição profunda da mesma lei da vida—a diversidade, o movimento, a successão—dava-lhes{36} a largura, a flexibilidade e o vago necessarios para que correspondessem a todas ás formas innumeras e inesperadas do espirito, ás infinitas transformações das sociedades, ás mil apparencias da realidade. Dava-lhes a virtude d'esses cordeaes proprios para todas as idades e todas as compleições: para os fortes calmante; e para os fracos, balsamo e conforto. Eram como o vestido natural do corpo do homem acompanhando todos os movimentos, feito para todas as altitudes: simples ao pé do lar, nobre na praça, grave no repouso, e na luta ou na corrida ligeiro e facil.
Esta verdade humana que as fez tão animadas, por isso mesmo as impedio d'avistarem o outro termo correlativo, o extra-humano, o absoluto.
No coração d'essas raças como parte que é da alma, estava esse sentimento, por certo. Mas não vinha fóra em{37} fórma de luz, não inundava d'ali o mundo, não doirava a fronte dos deuses nem a cabeça dos homens. Viram-na, a essa luz, passar como relampago nos olhos d'alguns inspirados; mas o povo não a soube comprehender, deixou-a morrer, quando a não matou elle mesmo. No meio da diversidade, que o absorvia, o politheismo não pôde conceber a unidade existente com ella e n'ella mesma porventura. Ao sol da Grecia e do Oriente, a rosa viva, a flor intima da humanidade, a alma, abrira todas as suas petalas extranhas mas formosissimas! uma só ficou fechada; mas essa era a mais larga e a mais forte, que devia conter todas as outras—o sentimento da unidade.