Uma maneira mais intima e juntamente mais larga de comprehender a humanidade e o individuo, que caracterisa o pensamento moderno, explica esta especie de condão magico com que o nosso seculo tem aberto os recessos obscuros, em que a alma dos tempos antigos parecia haver-se para sempre sepultado, defendida pelo silencio e pelo mysterio.{8}

Com effeito, em quanto se não viu, por um lado, na humanidade um todo vivo, cujos movimentos são determinados por leis naturaes e constantes, embora complexas e obscuras, e, por outro lado, no individuo, dentro da humanidade, uma força, não caprichosa, mas coherente, embora livre, e cujas manifestações são todas respeitaveis e legitimas, tendo todas a sua razão de ser e o seu valor; em quanto, sobretudo, se não comprehendeu que os momentos da historia não são contradictorios entre si, mas representam varios termos d'uma serie por onde o espirito humano, ascendendo, se affirma, transformando em parte as condições do meio em que se move, e em parte subordinando-se a ellas, e que, por isso, esses momentos não devem tanto ser julgados como comprehendidos; em quanto este ponto de vista, ao mesmo tempo idealista e scientifico, se não estabeleceu--a historia critica, intima, psychologica, era impossivel, e impossivel tambem a philosophia da historia.

É por esta razão que a critica e historia litterarias soffreram em o nosso tempo uma completa e profundissima renovação, e que a historia philosophica das litteraturas só recentemente se pôde constituir.

Considerava-se, ha 100 annos ainda, a obra litteraria como uma criação meramente individual, determinada apenas pelo sentimento pessoal, o genio, as disposições do poeta: não se via a relação estreita que ha entre a inspiração do individuo e o pensamento da época, a raça, o meio social, e o{9} momento historico. Uma poetica, tão estreita quanto inflexivel, media tudo, as producções de povos e tempos os mais diversos, por uma unica bitola, o gosto, e, dominada pela preoccupação fanatica do classico, bania da historia épocas e raças inteiras, condemnadas como barbaras, incultas, rudes. O que ha de mais caracteristico e muitas vezes de mais profundo na obra d'arte, a revelação do sentir intimo dos homens nas diversas condições moraes e sociaes, ficava d'este modo perdido para a critica, era despresado em nome d'um ideal de perfeição uniforme, em grande parte convencional, e em todo o caso abstracto e, por isso, irrealisavel.

Sabemos hoje que a esthetica, sob pena de se excluir systematicamente da realidade, não póde ser absoluta senão nas suas leis fundamentaes, isto é, n'aquillo mesmo em que é absoluto e immutavel o espirito humano: em tudo mais é, como elle, variavel e progressiva. Tem uma statica e uma dynamica: e se a primeira, que é toda abstracta, explica e dá a razão da segunda, que é toda concreta, é a segunda quem explica e dá a razão das obras d'arte, naturalmente concretas e contidas nas condições do tempo e do meio. Ao methodo exclusivamente abstracto substituiu-se o methodo historico, e para logo todas as litteraturas, as antigas e as modernas, as barbaras e as cultas, alumiadas por uma luz nova, appareceram com as suas feições caracteristicas, os seus relevos naturaes, os seus contornos, e vieram tomar cada qual o logar que lhe competia na serie{10} dos desenvolvimentos do espirito humano. Para logo tambem se tornou manifesta a alta significação das litteraturas, testemunhas desprevenidas e candidas, vindo depôr uma após outra sobre o viver intimo das respectivas sociedades, e denunciando ingenuamente a feição psychologica correspondente a cada povo e a cada idade. A philosophia da historia encontrou n'ellas o instrumento mais delicado e, ao mesmo tempo, o mais preciso, para determinar o grau de valor moral de cada civilisação: na sua mão um poema pôde tornar-se, muitas vezes, o ramo d'ouro da sibylla, com que descesse á região dos mortos, a interrogal-os; versos cantados ha mil, ha dous e tres mil annos por poetas desconhecidos, explicaram os movimentos das raças, as origens, os esplendores, as revoluções e as catastrophes dos imperios.

A historia litteraria deixou de ser uma curiosidade: appareceu como uma realidade cheia de vida e de expressão. Correspondendo a uma ordem de phenomenos distinctos e importantissimos, tornou-se objecto d'uma sciencia e, como tal, um ramo da philosophia. Hoje por toda a Europa, os estudos de historia litteraria, transformados, seguem com firmeza no caminho aberto com juvenil impetuosidade pela escóla allemã do começo d'este seculo: refundem-se, desenvolvem-se ou corrigem-se as primeiras conclusões, naturalmente incompletas umas e outras prematuras ou em extremo systematicas, e á grande renovação sahida d'este movimento se ligam muitos{11} dos nomes mais illustres e das obras mais fecundas do nosso tempo.

Entre nós, as duas gerações litterarias, que se succederam desde 1830 até hoje, mais apaixonadas e criadoras do que criticas, mais poeticas e enthusiastas do que reflectidas, e, sobretudo, dominadas por aquella como que instinctiva repugnancia ás ideas geraes propria d'um povo educado pelo catholicismo no que elle tem de mais estreito e esterilisador, receberam com desdem, ou apenas aceitaram, o que havia de mais superficial no movimento renovador, quando não o ignoraram completamente. A historia litteraria continuou erudita, como d'antes, na sua gravidade inexpressiva, e a critica, apesar de muitas proclamações revolucionarias, acatou todavia o altar consagrado e o velho idolo do gosto. É verdade que o gosto, sacudido no seu somno secular por mãos juvenis, teve de abandonar as vestes antigas e compromettedoras do classico e de se fazer (ou deixar que o fizessem) romantico. Era já um grande passo, confessemol-o: simplesmente, este primeiro passo, timido ainda, obrigava a dar um segundo e mais decisivo--e esse é que não se deu.

Nem se podia dar. Devemos muito áquellas duas gerações, é justo confessal-o. Mas a sua missão foi outra, e outro o seu trabalho. N'este empenho de fazer penetrar o espirito philosophico na historia da litteratura patria, e de levantar entre nós a critica á altura em que mãos vigorosas e illustres a têem{12} collocado n'outros paizes, a geração nova achou-se sem predecessores nem mestres entre os escriptores nacionaes, e teve forçosamente de se virar para os estranhos. D'aqui uma certa confusão, a adopção quasi sur parole dos systemas estrangeiros, e algum mau estylo...

Entretanto, a sua vocação é essa, evidentemente critica e philosophica. Menos criadora e espontanea, e libertada já dos preconceitos da educação tradicional, a nova geração tem por área natural dos seus trabalhos os estudos criticos e as idéas geraes. A historia philosophica, a philologia, as sciencias sociaes, eis o vasto campo que, entre nós, a sua actividade tem de desbravar e fecundar.

Na historia litteraria, os primeiros passos n'este caminho foram dados corajosamente por um trabalhador dotado de energia e perseverança singulares, o snr. Theophilo Braga. Pódem disputar-lhe qualquer outra especie de gloria, menos esta, já não pequena, de iniciador. A consideração do que ha de viril e quasi heroico na attitude dos exploradores, faz-nos vêr na sua obra mais ainda o valor d'uma acção pessoal do que o das conclusões scientificas, e dá-lhe um merecimento independente das muitas imperfeições e lacunas, que seria pueril pretender dissimular.