Com effeito, a sua gloriosa iniciativa é compensada, como geralmente acontece aos iniciadores, por defeitos graves: dous, que resumem e d'onde se originam todos os outros: a impaciencia, que leva{13} a conclusões prematuras, e o espirito systematico, que leva a conclusões falsas. Por um lado, uma verdura (se assim se póde dizer) de theorias e explicações mais ou menos phantasiosas, e por outro lado uma inflexibilidade canonica na applicação stricta de certas formulas aos problemas os mais complexos, dão muitas vezes aos seus livros aquella feição singular de inconsistencia e ao mesmo tempo de dogmatismo, de aventuroso e juntamente de acanhado, que caracterisa os trabalhos sem precedentes, filhos da febre da innovação e do isolamento. O grande merecimento d'estes livros póde dizer-se que consiste ainda mais em ter levantado as questões do que em tel-as definitivamente resolvido.
Ha, todavia, lados verdadeiramente solidos nas obras do snr. Theophilo Braga. O seu talento é muito mais analytico do que generalisador; d'aqui, a inferioridade relativa das suas apreciações philosophicas, comparadas com os seus trabalhos propriamente criticos. N'estes, que constituem a parte mais séria e fecunda da sua obra, encontramos os processos da sciencia, como os têem comprehendido os mestres d'este seculo, applicados geralmente com discernimento, com uma grave despreoccupação de tudo o que não é a logica e a verdade, e dando resultados positivos, muitos dos quaes se devem considerar definitivos. Distinguem-se por estas qualidades, entre os volumes da sua grande historia da litteratura portugueza, já publicados, os estudos sobre Sá de Miranda e a sua escóla, sobre os poetas{14} palacianos do seculo XV, e sobre o theatro portuguez nos seculos XVII e XVIII. Ha novidade e ao mesmo tempo segurança em muitas partes d'aquelles estudos: entrevêem-se as revoluções litterarias, no que ellas têem de mais intimo, isto é, nas suas relações com os costumes e as opiniões que se transformam; assiste-se ao nascimento e á decadencia das escólas; vêem-se as razões do progresso de certos generos, do estacionamento ou esterilidade de certos outros. Ha alli verdadeiras descobertas biographicas e chronologicas, e mais d'uma aproximação feliz que lança uma luz nova sobre os assumptos. Apesar da fraqueza e ás vezes puerilidade de certas inducções, do abuso da intuição como processo scientifico, da nimia importancia dada a particularidades insignificantes, da repetição e distribuição pouco logica das materias, deve esta parte da obra do snr. Theophilo Braga (a analytica e critica) ser considerada não só como o que ha de mais solido no edificio levantado por suas mãos laboriosas, mas ainda como um trabalho em si, de indisputavel valor.
O lado inferior e fragil, a meu vêr, são as theorias geraes, a parte philosophica. Sente-se que não é essa a vocação do talento do snr. Theophilo Braga. Ao mesmo tempo chimerico e systematico, dá ás suas doutrinas geraes uma feição dogmatica, que lhes tira aquelle poder de ductilidade e comprehensão, sem o qual uma theoria, para accommodar os factos ao seu rigor inflexivel, tem de os forçar umas vezes e outras vezes de os pôr de lado--isto é, não{15} passa d'uma pura abstracção. É isto o que torna abstrusas certas obras, como a Poesia do Direito, por exemplo. É isto mesmo o que encontramos na maneira por que o snr. Theophilo Braga comprehende e explica a philosophia da historia litteraria portuguesa. Seguindo Schlegel e a escóla romantica allemã do começo d'este seculo, tomou uma theoria incompleta e d'uma applicação muito particular por um principio universal, applicavel a todas as litteraturas, e fez della o molde em que a litteratura portugueza devia entrar, coute qui coute. Sabe-se que aquella escóla considerava a litteratura, juntamente com todas as outras fórmas da civilisação, direito, arte, etc., como a expressão genuina do genio da raça, subordinando a nacionalidade, em todas as suas manifestações, a um ponto de vista puramente ethnologico. Só a raça, na sua espontaneidade nativa, era verdadeiramente criadora, só ella original: a tradição, como intrusa, devia considerar-se o elemento esterilisador, e as obras por ella inspiradas falsas, anti-nacionaes. Applicando estes principios ás sociedades que se formaram na Europa sobre as ruinas do imperio romano, a escóla romantica oppoz á cultura tradicional o genio popular, ao romanismo as nacionalidades. Viu por toda a parte o dualismo; d'um lado, o espirito monarchico e ecclesiastico, formalistico e estreito, conservador das tradições latinas: do outro lado, o povo, todo espontaneo, traduzindo a originalidade do seu genio em criações livres e verdadeiramente inspiradas:{16} por toda a parte uma raça original luctava contra tradições esterilisadoras, que tentavam suffocal-a. A idade média fôra o theatro d'esse combate: a Renascença e os seculos XVII e XVIII pareceram, com a influencia universal do classico, dar o triumpho definitivo ao espirito tradicional; porém o seculo XIX, a grande era das reinvindicações, erguendo a bandeira do romantismo e das nacionalidades, ia evocar de novo o genio das raças, adormecido no seio do povo, retemperando as nações no baptismo sagrado das origens.
Quem não vê o que ha de falso n'esta these, apresentada assim d'uma maneira absoluta? mas quem não vê tambem quanto ha de verdadeiro e profundo no ponto de vista ethnologico, desde o momento em que, deixando de ser o fundamento do systema, se considere apenas como um dos elementos componentes d'elle, embora um dos mais consideraveis? Quem não vê, sobretudo, a fecunda influencia d'esse ponto de vista sobre os estudos litterarios, o conhecimento das origens, a comprehensão das criações populares, a renovação da critica? Póde dizer-se que o que ha de mais falso n'este systema é ser um systema; porque, contendo muita verdade, não é a verdade toda. É muito mais incompleto do que erroneo; porque, se o genio de cada raça fornece com effeito os elementos e como que a materia prima das civilisações, a cultura e a tradição representam o trabalho de aperfeiçoamento do espirito humano, accumulado, que desenvolve aquelles elementos{17} e, fazendo por assim dizer fermentar aquella materia primitiva, lhes dá uma fórma nova e superior. Para os povos sem precedentes nem tradições d'um mundo anterior, que começam isolados o trabalho da civilisação desde os seus inicios, e cujas criações representam apenas o fundo originario fornecido pelo caracter da raça, como fôram os indios desde o Rig Veda até Kalidassa, os gregos até Alexandre, e os scandinavos até á conversão ao christianismo, para esses é aquella theoria rigorosamente verdadeira. Mas como applical-a á Europa da idade média, a esse mundo tão complexo, e que, com ser fundado sobre a ruina do imperio romano, é todavia uma continuação e em grande parte um desenvolvimento da civilisação romana? Na vida dos povos modernos entraram desde o berço energicos elementos latinos que, absorvidos com maior ou menor sympathia, em maior ou menor quantidade, e combinados com os elementos primitivos, constituiram o temperamento particular de cada uma d'essas nações, o seu genio nacional. Esse genio é pois complexo, e complexo o caracter das suas criações: reduzil-as a um principio unico é querer de proposito acanhar a historia, proscrevendo arbitrariamente épocas inteiras.
A originalidade de cada uma das modernas litteraturas da Europa está, não em representar os caracteres primitivos de tal ou tal raça, mas sim os momentos de desenvolvimento d'esses caracteres, na sua combinação gradual com aquelles elementos estranhos,{18} que, sob fórma de tradição, constituem ha mais de dous mil annos o fundo commum da civilisação europêa. N'estes termos, a theoria romantica tem o seu valor e a sua applicação. Applica-se tanto mais quanto menos romanisado (isto é, civilisado) foi o povo cuja litteratura se estuda; mais á Allemanha do que á França; muito á Inglaterra, muito pouco á Italia; muito mais á Hespanha do que a Portugal; em absoluto, a nenhum se póde applicar. A mesma litteratura allemã (sahida da raça que menos elementos latinos absorveu) será por ventura exclusivamente germanica? Seria um paradoxo affirmal-o. Do seculo IX em diante a pureza do elemento germanico altera-se, e cada vez mais turvo segue de seculo para seculo. O grande fundador da litteratura allemã, Luthero, que começa com a Reforma a reacção do germanismo contra o romanismo, representará acaso na sua obra, nas suas idéas, nos seus escriptos, o elemento germanico puro, estreme, exclusivo? Pelo contrario, se o caracter de Luthero é essencialmente allemão, a doutrina de Luthero essa é quasi completamente extra-allemã, filha da Biblia hebraica e do platonismo grego. E Leibnitz? e Lessing? e Goethe, o velho pagão?... Se os romanticos allemães quizessem ser completamente logicos, tinham de fazer terminar o periodo nacional da litteratura allemã no seculo X, com os Niebelungen, ou quando muito no seculo XVI, com os Meistersaenger: d'ahi por diante em parte alguma se encontra o germanismo puro. E todavia, é no seculo XVI{19} que verdadeiramente começa a grande época do pensamento allemão!
Eis as insoluveis difficuldades que levanta o systema ethnologico applicado ás litteraturas modernas, ainda mesmo áquellas em que mais visiveis são as influencias de raça. Que será então, se o quizermos applicar a uma nação sem base ethnographicamente definida, como a portugueza, criação da politica e não da natureza, das instituições e não da raça, e que mais que nenhuma outra, talvez, absorveu e fez seu o genio da civilisação romana? Evidentemente, a theoria romantica não póde ter aqui senão uma applicação muito limitada e muito secundaria: e é por ter desconhecido esses limites que o snr. Theophilo Braga, collocando-se exclusivamente no ponto de vista ethnologico, não conseguiu, apesar da sua competencia scientifica e provada capacidade, dar senão uma solução incompleta e muitas vezes forçada ao problema da systematisação e explicação geral da litteratura portugueza. Dominado pela necessidade de dar por fundamento ao genio nacional o genio d'uma raça primitiva e sui generis, teve, por assim dizer, de inventar para Portugal essa raça primitiva. Estendeu um facto particular de certas provincias, a existencia das populações mosarabicas, a todo o paiz; e, transformando esse phenomeno puramente social em phenomeno ethnologico, fez dos mosarabes uma raça distincta, cuja profunda espontaneidade, apesar de prematuramente suffocada, se revelou em criações sentimentaes, que o snr. Theophilo Braga{20} laboriosamente trata de descobrir, e que, segundo elle, teriam dado á litteratura portugueza uma feição original, se a tradição classica não tivesse obstado ao desenvolvimento livre d'esse cyclo verdadeiramente nacional. Esta esterilisadora tradição classica vê-a o snr. Theophilo Braga representada na aristocracia asturoleoneza romanisada, authoritaria e imitadora. A aristocracia, pela instituição monarchica, pelo catholicismo, pelo provençalismo, depois pela reforma dos foraes, o direito romano e o poder absoluto, suffoca o livre genio mosarabico e faz da litteratura portugueza, que nas mãos poeticas do mosarabe promettia ser um jardim oriental, um triste deserto de imitações estereis e infesadas, onde só por milagre a seiva primitiva faz de longe em longe rebentar alguma flôr doentia, fadada a morrer sem se propagar. D'aqui conclue o snr. Theophilo Braga que litteratura verdadeiramente nacional nunca chegou a haver entre nós.
Expôr esta doutrina, nas suas conclusões extremas, é quasi refutal-a. Nem as populações mosarabicas constituiram uma raça, nem a área por ellas occupada se estendeu a todo o paiz, nem na sociedade portugueza existiu nunca o supposto dualismo, a opposição do mosarabe plebeu e do aristocrata godo: nada d'isto se póde provar scientificamente, nem mesmo racionalmente conjecturar. Os mosarabes, isto é, os christãos, que, tendo acceitado o dominio dos arabes, viviam no meio d'elles, adoptando-lhes os costumes, mas conservando a antiga religião, não{21} formaram um grupo ethnographicamente classificavel: eram, como é ainda hoje toda a população da Peninsula, exceptuados os Bascos, um mixto formado pelo sangue ibero, romano, godo e arabe, em proporções extremamente variaveis de região para região. Que tem isto que vêr com uma raça particularmente portuguesa?--Depois, essas populações mosarabicas pouco se estenderam ao norte do Mondego: ora, é exactamente do Mondego para o norte que residiu durante os primeiros seculos a força da nacionalidade portugueza, d'ahi que partiu o grande impulso emancipador. Não fôram pois os mosarabes os fundadores d'essa nacionalidade, nem os criadores do seu caracter particular. Temos vivido e vivemos ainda hoje d'esse espirito de intrepida personalidade, que fez então erguerem-se os homens energicos do norte de Portugal, não do genio mosarabe, que (ainda que tivesse existido) seria sempre secundario.
Finalmente, a opposição do mosarabe e do aristocrata godo reduz-se simplesmente á opposição da plebe e da aristocracia, facto social e não ethnologico, geral em toda a Europa, e que nada tem que vêr com a originalidade das litteraturas. A aristocracia, durante seculos, não esmagou ou suffocou o espirito das populações inferiores, nem entre nós nem em parte alguma: civilisou. Depositarias das tradições romanas e, ao mesmo tempo, representantes do genio de cada nacionalidade, no que elle tinha de mais energico, as aristocracias exerceram uma legitima influencia iniciadora, e, durante 600 ou 700{22} annos de formidavel tumulto heroico, dispozeram os elementos com que as monarchias da Renascença constituiram definitivamente as nações modernas. Dar á aristocracia um papel todo negativo é querer reduzir ao absurdo, com uma pennada, sete seculos da historia da Europa e contradizer um dos resultados mais seguros da moderna sciencia historica, a classificação dos elementos sociaes e a importancia de cada qual na obra commum.
O erro dos principios vê-se sobretudo nas conclusões. Com effeito, uma vez estabelecido o dualismo e considerado o povo portuguez como mosarabe, e o mosarabe como só inspirado e criador, toda a litteratura culta tinha forçosamente de ser condemnada pelo snr. Theophilo Braga, como anti-nacional, recebendo fóros de nacionalidade sómente a poesia popular: tudo mais não passa de imitação, copia servil, e, como tal, esteril e sem importancia aos olhos da philosophia. Esta larga parte da imitação na nossa litteratura descobre-a o snr. Theophilo Braga com exemplar erudição e excellente critica, mostrando claramente as influencias provençal, franceza, hespanhola e italiana a que obedeceu a litteratura portugueza. Mas não é no facto das imitações que está a questão. Esse facto não se dá só comnosco; dá-se em todas as litteraturas das nações da Europa então cultas. A influencia provençal fez-se sentir na França, na Italia, na Hespanha e até na Allemanha; os poemas francezes foram, por seu turno, traduzidos e imitados por toda a parte na{23} idade média, e as litteraturas hespanhola e italiana tiveram tambem o seu momento de se tornarem europêas. Que prova isto? Prova simplesmente que já na idade média a Europa formava uma especie de confederação moral, e que a troca dos pensamentos, das descobertas, das criações artisticas era já então uma lei natural para nações todas christãs, herdeiras todas da civilisação romana. Mas essa troca não implica a abdicação das originalidades nacionaes. Na adopção das idéas estrangeiras cada povo recebe o que convém ao seu temperamento particular, dá-lhe uma feição propria, e póde mostrar a originalidade do seu genio dentro das fórmas recebidas dos outros. Poucas, pouquissimas obras originaes, no sentido exclusivo e absoluto em que o snr. Theophilo Braga toma esta palavra, nos apresentam as litteraturas dos povos ainda os mais criadores: n'esse sentido não é original Virgilio, nem Dante, nem Camões, nem Lope de Vega, nem Shakespeare, nem Corneille, nem Goethe. Mas as litteraturas apresentam-nos muitas obras primas, formadas d'uma maneira nova e original com elementos estranhos ou já conhecidos. Por essas, tão bem como pelas outras, se póde avaliar o caracter, as tendencias, o genio emfim do povo que as produziu, e é quanto basta para se poder affirmar que esse povo teve ou tem litteratura e que essa litteratura é original. O genio, em geral, e em particular o genio nacional, consiste muito mais na maneira propria de dispôr os materiaes herdados ou emprestados,{24} do que na criação, como que inteiriça e d'um jacto, de elementos completamente novos e sem precedentes--proles sine matre creata. Ora a humanidade vive sobretudo de tradições, e ha para os povos como para os individuos um verdadeiro ensino mutuo, pelo qual cada um, sem deixar de ser o que é, aproveita da experiencia e do trabalho dos outros. O snr. Theophilo Braga, que é poeta e bom poeta, e além d'isso homem de gosto e consciencioso, por si apreciaria o valor d'estas verdades, se o espirito systematico não obscurecesse o seu bom juizo em se tratando da litteratura portugueza.
Quer isto dizer que as suas idéas, por incompletas, sejam inteiramente estereis para a historia da nossa litteratura? Por fórma alguma. Ninguem, melhor do que o snr. Theophilo Braga, comprehendeu a alta significação da nossa poesia popular, que estudou com verdadeiro amor e respeito religioso: e este sentimento do primitivo e do espontaneo deve-o ao seu ponto de vista ethnologico. Por este sentimento pôde com muito tacto discriminar a parte da imitação e de convencional nas obras da poesia culta, embora, a meu vêr, concluisse mal do facto d'essa imitação. Por elle pôde caracterisar certas physionomias originaes, até aqui mal comprehendidas, Gil Vicente, por exemplo. Em tudo isto a sua critica é excellente. E é por isso mesmo que os apreciadores do talento e das obras do snr. Theophilo Braga devem, me parece, fazer votos para que a sua sensivel imaginação o não seduza, com vagas miragens,{25} para fóra do campo dos trabalhos de analyse e critica, que são a sua vocação, arrastando-o para as regiões perigosas da synthese e da philosophia, onde a imaginação e o sentimento, essas fadas encantadoras, se transformam muitas vezes em perfidas ondinas e sereias, para mal de quem as segue com muito candida confiança.{26} {27}