Decadencia irremediavel? pergunta o snr. Oliveira Martins, nas ultimas paginas do seu livro. Não! responde-lhe a philosophia revolucionaria. A nossa renovação moral e litteraria será possivel no dia em que, pela reforma das instituições sociaes, por uma nova e melhor comprehensão da justiça, comece outra vez o espirito a circular n'este grande corpo, mais inerte ainda do que acabado, volte a animal-o uma alma, um ideal collectivo. Então Portugal terá de novo uma razão de ser, e a idéa nacional, mais brilhante e mais quente depois do seu eclipse secular, fará rebentar outra vez fructos e flôres d'este chão endurecido sim, mas debaixo do{39} qual ha ainda (embora a grande profundidade) fontes vivas em abundancia. As grandes acções serão outra vez possiveis, e um melhor e mais alto heroismo: por elle serão não só possiveis, mas quasi inevitaveis os grandes pensamentos poeticos. A renovação litteraria de Portugal é correlativa com a sua renovação social e está dependente d'ella: é a conclusão do livro do snr. Oliveira Martins, conclusão que todos devemos aceitar, não como uma vaga esperança, mas como uma verdade philosophica cuja realisação não depende senão do nosso esforço, da energia do nosso sentimento moral. Somos os operarios do nosso proprio destino, e desde já as nossas mãos o vão aperfeiçoando: terá a fórma que lhe dermos.

N'este trabalho solemne da renovação nacional, grande é a tarefa que está talhada para a geração nova, e immensa a sua responsabilidade! Estará ella, pela intelligencia e pelo coração, pela sciencia e pela virtude, á altura d'esta obra austera e formidavel? Muitos o duvidam, vendo-lhe no rosto uma pallidez de mau agouro... Não me cabe a mim decidil-o: direi sómente que (quaesquer que tenham de ser os nossos destinos) para darem testemunho das intenções sérias d'uma parte consideravel da nossa geração, do seu espirito renovador, da sua aspiração a uma melhor sciencia, bastarão em todo o tempo obras como a Historia da litteratura portugueza, do snr. Theophilo Braga, e o Ensaio sobre Camões, do snr. Oliveira Martins.

9 de maio de 1872.

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Estavam já escriptas e publicadas estas paginas, quando appareceu, com o titulo de Desenvolvimento da litteratura portugueza, a These do snr. Pinheiro Chagas, para o concurso da 3.ª cadeira no Curso superior de letras. N'esta resenha das opiniões, emittidas pelos escriptores da nova geração, sobre o systema geral da nossa litteratura, fôra injustiça não consagrar algumas linhas ao trabalho do snr. Pinheiro Chagas, já pelo valor do trabalho em si, já pela posição que seu author occupa entre os escriptores moços.

As conclusões da These do snr. Pinheiro Chagas são as seguintes:

1.º--Que o povo portuguez não é constituido por uma raça especial, a que se dê o nome de mosarabe, comprimida sempre e atrophiada nas suas criações pela nobreza, constituida por outra raça, a que se dê o nome de asturiana.

2.º--Que nem as inducções philologicas, nem os factos historicos, permittem que se dê ao povo portuguez uma origem germanica, e á aristocracia uma origem latina; que, pelo contrario, se algum dos elementos constitutivos da raça peninsular prodomina no povo, deve ser o elemento hispano-romano, e na aristocracia o elemento gothico.

3.º--Que teve o povo portuguez, durante a idade média, uma vigorosa existencia, manifestada politicamente{41} pela robusta vida municipal, litterariamente pela sua collaboração nos vastos romanceiros peninsulares, e pelas chronicas de Fernão Lopes.

4.º--Que a litteratura aristocratica aceitou a influencia provençal, a influencia da França do norte, e a influencia italiana, como succedeu nos outros reinos da Peninsula.