5.º--Que no seculo XVI a reação latinista imperou aqui, da mesma fórma que em toda a Europa, mas que a originalidade do nosso povo se manifestou com o vigor admiravel na epopêa de Camões, no theatro de Gil Vicente, e nas chronicas dos descobrimentos.

6.º--Que a decadencia da nossa litteratura foi devida a tres causas deprimentes: o despotismo monarchico e centralisador, que imperou em todas as raças neo-latinas, o despotismo religioso que actuou com a mesma energia na Italia e principalmente na Hespanha, e a perda da nossa nacionalidade, que foi uma causa especial, devida a fataes circumstancias historicas.

Estas conclusões, como o leitor vê, entram, salvo leves differenças, no ponto de vista das considerações que apresentei, tanto combatendo o systema do snr. Theophilo Braga, como expondo e commentando o do snr. Oliveira Martins. Por isso não posso, sem me repetir escusadamente, insistir n'estes pontos. Concordo com o modo de vêr tão lucido e tão realmente portuguez, sem deixar nunca por isso de ser{42} scientifico, do snr. Pinheiro Chagas; e folgo de me encontrar (pelo menos n'este sereno campo da historia litteraria, onde se descança, entre flôres ideaes, de tantas luctas que separam os homens de hoje) em communhão de vistas com um espirito tão gentil e cultivado.

Desejo, porém, dar relevo a um ponto, por onde a These do snr. Pinheiro Chagas particularmente me impressionou. É o caracter eminentemente nacional e (vá a palavra, apesar de tão conspurcada pelos vendilhões de portuguezismo) patriotico da sua critica.

A sciencia, essa grande potencia imparcial, essa patria commum de todos os espiritos bem nascidos, está certamente muito acima do patriotismo, que tantas illusões offuscam, que tantas miserias até encobre ás vezes debaixo da sua apparatosa toga pretexta. Mas essa preferencia e esse sacrificio do patriotismo á sciencia dá-se só onde o patriotismo estreito ou refalsado tenta oppôr-se á luminosa sciencia, franca e comprehensiva. Então, caia por terra, seja derrocado sem piedade o edificio ruinoso do orgulho d'um povo! Passe a luz da intelligencia através das ruinas, e purifique-as!--Mas não é isso o que se dá com a historia litteraria portugueza. Cá não existe essencialmente tal opposição. Um largo patriotismo é perfeitamente compativel com a imparcialidade da critica, no estudo dos nossos poetas, dos nossos escriptores, durante 600 annos, que não foram sem gloria nem originalidade.{43}

Vou mais longe. Direi que esse largo e justo sentimento patriotico é até indispensavel para bem comprehender o que houve n'este povo, na sua vida agitada, dramatica, heroica, a sua alma, a sua realidade moral.

Sim, existimos! e existimos como homens, pensando, sentindo, querendo, obrando. Criámos, descobrimos, combatemos; e podemos dizer ao mundo: «Aqui está o que nós amámos! aqui está o que nós odiámos!»--E o que é isto senão sentir-se portuguez e ser patriota? E como, sem isto, se poderá comprehender o que pensaram e escreveram portuguezes, e pensaram e escreveram como portuguezes?

A sciencia não contradiz isto. Parte, pelo contrario, d'este ponto de partida. E é em nome d'ella que o snr. Pinheiro Chagas diz com tanta verdade como energia: «os portuguezes não são os párias litterarios da Europa!»

Esta affirmação do passado é-nos necessaria para podermos, através do presente tão cheio de melancolia, crêr e confiar n'um futuro melhor--e preparal-o virilmente.

Que significa pois essa pseudo-escóla, que, em nome de não sei que sonhada decadencia das raças latinas, deprime systematicamente quanto teve ou tem o nome de portuguez, e nos aponta o ideal d'um messianico germanismo (que nem talvez saiba definir), de uma absurda supremacia das raças germanicas, como a unica salvação possivel?