Estranha salvação, com effeito, para a qual é{44} necessario começarmos por deixar de ser quem somos! Aconselham-nos que imitemos pacientemente, sem critica e sem protesto, os exemplos dos nossos mestres e senhores, os allemães, unicos pensadores e sabios, ao que parece, sem verem que imitação importa abdicação, e que um povo que abdica do seu pensamento é um povo que se suicida!
Como se não bastassem já as nossas miserias actuaes, juntam-lhes mais esta, e capital: a descrença da nossa propria capacidade e da nossa vida moral. É este exactamente aquelle maximo peccado, que a Igreja considerou sem remissão: desesperação de se salvar.
Não é assim, pelo desespero e abdicação, que nos salvaremos. Não é assim que quem está prostrado se levanta; esperando que alguem lhe dê a mão. Esse tal jazerá eternamente.
Sejamos nós mesmos. Tenhamos esse valor, e tudo se tornará possivel. Antes de tudo, convém crermos em nós mesmos, no passado como no presente. Crêr em si não é adorar-se. Podemos ter essa crença, sem santificarmos por isso os nossos vicios, sem nos illudirmos sobre as nossas miserias antigas e modernas, sem nos endurecermos na nossa ignorancia e confusão. Podemos crêr em nós, e confessarmos os nossos erros: quem se suicidou só por que uma vez se reconheceu peccador? Se errámos e peccámos (e peccámos e errámos bastante), reformemo-nos corajosamente, mas seguindo sempre uma inspiração propria, consultando a nossa alma, não a dos{45} outros, a voz da nossa consciencia, não a da consciencia alheia.
Foi isto o que fez essa Allemanha, que nos impõem como modêlo os que talvez menos a conhecem, essa Allemanha, que eu admiro, a quem devo muito, mas a quem quero seguir livremente, com um plenissimo direito de critica, e consultando sempre os meus intimos instinctos de latino, que sou e não me envergonho de ser. A Allemanha, perdida, ensanguentada, esquartejada em 1808, que fez para não morrer de todo? que fez para voltar á vida, mais robusta e sadía do que nunca? Imitou a França vencedora? renegou do genio germanico? não: concentrou-se em si mesma; appellou para o seu genio historico, e elle respondeu-lhe com inspirações salvadoras. Foi, mais que nunca, allemã.
Sejamos, pois, nós todos, francezes, hespanhoes, italianos, portuguezes, mais que nunca latinos.
Ha um genio latino, como ha um genio germanico. A historia o revela: e, quando a historia fosse muda, a nossa consciencia bradaria sempre, dando-lhe o seu nome.
É a Revolução.
É este o pensamento secular das raças latinas: a revolução moral, politica e social. Concentremo-nos n'elle. Só a elle peçamos inspirações. Com essa fé abalaremos montanhas. O momento actual é turvo, certamente; mas a revolução tem luz e calor bastante em si, não só para dissipar um nevoeiro momentaneo, mas para dar vida a um cahos.{46}
Os germanicos, cuidando-se originaes, fazem imperios: nós, latinos, desfaçamol-os. Reformam velhas religiões: prescindamos nós d'ellas. Reconstituem, com os milhões do espolio, uma nova aristocracia: dêmos nós aos povos a igualdade social.