É mister ser-se um grande poeta—poeta{41} de muito crêr e muito esperar,—para poder lançar um olhar seguro por sobre todas essas populações miseraveis dos nossos campos—orphãs da moderna civilisação—palpar-lhes todas as feridas, ouvir-lhes todos os queixumes, conhecer todo o fundo de seus males, e vir depois ainda crente, mais crente talvez do que nunca, entoar um hymno de esperança e felicidade para esses que por cruel ironia só lhes respondem com lagrimas e gemidos.

II

É que o poeta recebeu de Deus o condão mago de ler na noite de arredado futuro; de vêr luz e muita luz aonde outros só vêem trevas; flores de amor e de vida, aonde para muitos só brotam os goivos do sepulchro.

Esse lê bem, que assim lê em lettras{42} de ouro paginas de esperança e felicidade no grande livro dos destinos da humanidade.

Crê e espera—mas não lhe vem só do coração—de seu condão de poeta—essa crença e essa esperança.—Estudou, pensou, viu muito pelos olhos de sua intelligencia, e n'este estudo firmou elle em grande parte essa crença, que lhe dá a força de prometter ainda felicidade e muita felicidade para os campos, para os habitadores dos campos e para todos por via d'elles.

«Aconselhar a agricultura ao povo, diz o auctor, é aconselhar-lhe a propria felicidade».

Veremos se o alvitre é tão bom como se apregoa, se não cegou o poeta a propria inspiração.{43}

III

Retemperados pelas aguas lustraes d'um novo Jordão, por esse baptismo de fogo e sangue, pelo qual á Providencia aprouve fazer-nos passar, como iniciação nos umbraes do templo da liberdade, que a custo iamos conquistando, de tal arte nos cegou a novidade da conquista, tão afanosos nos mostramos no empenho de a bem guardar, que de todo nos esquecemos de que não é ella o fim unico (como se já suppoz) dos humanos destinos, mas antes um como meio de alcançarmos outros progressos; um primeiro passo, d'entre os muitos que ainda temos a dar: uma mera iniciação para aquelles que assentam o seu campo nos ainda mui desertos arraiaes do futuro.

Argos vigilantes, perdemo-nos enlevados na contemplação do thesouro, que assim nos traz presa a vista e a alma,{44} sem nos lembrarmos, que em volta a esse pomo d'ouro, que com tanto amor guardamos, outras e muito formosissimas flores se definham e morrem, sem que produzam fructo, á mingua talvez d'uma gotta d'agua, com que—a haver boa vontade—se lhes poderia dar vida ás raizes sequiosas.