CARTA A SEBASTIÃO D'ARRUDA DA COSTA BOTELHO

Villa do Conde, 1 de agosto de 1885

Meu Sebastião


Mando-te esses numeros da Provincia para veres o caracter imponente, que teve a manifestação do Porto e o tom a que o O. Martins tem sabido levantar o Progressismo, que tão desafinado andava. Verás tambem que elle não renegou, nem se desdiz. A bandeira que desfralda é a do Socialismo, como até aqui. Convencido como está, e estão todos os que sabem observar os factos, da incapacidade actual, (e que o será ainda por muito tempo), do partido republicano para fundar seja o que fôr e vendo ao mesmo tempo a imminencia de uma crise pavorosa, o O. Martins fez acto verdadeiro de patriotismo, procurando aquelles elementos, que bem dirigidos e transformados, poderão por ventura fornecer ainda um ponto de apoio no meio do naufragio. Um homem como O. Martins, não dá um passo destes, nem toma posição de tamanha responsabilidade, sem{51} ter visto bem as cousas e estudado o melhor caminho. Tem sido approvado por muita da melhor gente. O O. Martins é o unico homem politico superior que temos, pois reune a um elevado caracter um saber vasto e não só theorico mas technico e um poder de trabalho incomparavel. Quando um tal homem dá um passo, como elle deu, o dever da gente seria, ainda quando o não approve, é não o estorvar na sua tentativa, reconhecendo a pureza das suas intenções. Os republicanos, porém, cobriram-n'o de insultos e imputações as mais baixas—e no dia seguinte o que fizeram? foram alliar-se com os regeneradores, para combater o movimento por elle iniciado, movimento que pode falhar, mas que é sem duvida sério e exprime o sentir nacional, pelo menos neste ponto de querer acabar com essa alliança da burocracia com a finança, que é a fatalidade do partido regenerador, origem da corrupção politica e de um systematico desgoverno. Destruir essa oligarchia burocratico-financeira, que nos domina e desmoralisa, ha tantos annos, e impedir por meio de leis convenientes que ella possa de futuro tornar a formar-se, parece-me coisa muito mais importante do que uma simples alteração no caracter do poder executivo, cousa que deve ficar para depois, pois só as reformas economicas e financeiras tornarão aquella outra puramente politica, não só possivel, mas fecunda e duradoura. Isto tanto mais, quanto está imminente a bancarrota e uma tremenda crise social; a proclamação da Republica, não só não remediaria esses grandes males, (pois que influencia póde ter uma reforma só politica nos elementos financeiros{52} e economicos?) mas traria mais uma complicação e elemento de desordem, como ainda em 1873 se viu em Hespanha. Convém, pelo contrario, addiar essa questão, visto que não é urgente, e não complicar com ella a outra, urgentissima. É de boa politica, como é de boa logica, dividir as questões para as resolver, e começar por aquellas, que resolvidas, podem facilitar a resolução das outras. Impedir que tudo venha a baixo parece ser a cousa mais urgente. Depois reformar a constituição economica, de modo a impedir que um tal estado de cousas possa vir a repetir-se. E só depois organisar a constituição politica, tanto no que toca ao legislativo, como ao executivo, de modo a dar estabilidade e duração aos progressos realisados. Pódes crêr que estas são hoje, como sempre foram, as aspirações do O. Martins, que continúa sendo tão bom socialista e republicano como era dantes. Eu, por mim, approvo-o inteiramente na marcha que vae seguindo, e desejava que toda a gente séria lhe désse o apoio indispensavel, ainda aos maiores politicos, para fazerem qualquer cousa. Se todos começarem a hostilisal-o, é claro que nada poderá fazer. Virá a terra, e com elle a ultima esperança deste pobre Portugal. Então teremos o diluvio.

Adeus, meu Sebastião. Do teu de c.

A. de Q.

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