A vida contemplativa, porem, a vida asceta inclusivamente: essa virtude austera para comsigo, tolerante para com tudo e para com todos; esse observar constante de si proprio e o dispensar de um sorriso sempre bom, embora indifferente com frequencia, aos que alguma vez o rodeiam; a caridade, o amor, a abnegação, as tentações, as crises, as lagrimas, as afflicções, as duvidas cruciantes e as dores angustiosas: tudo o que, reunido, forma uma alma mystica—tudo isso móra na alma d'este poeta arrebatada pela visão inextinguivel do Bem.

Só no meu coração, que sondo e meço,
Não sei que voz, que eu mesmo desconheço,
Em segredo protesta e affirma o Bem.

E para nada faltar a este mystico, anachronicamente perdido no meio do borborinho de um seculo activo até á demencia, tem tambem uma fé ardente—uma fé buddhista. Somente o seu Deus, Deus sem vontade, sem intelligencia e sem consciencia, é, para nós outros, a quem são vedados os mysterios da metaphisica buddhista, igual a cousa nenhuma.

Este homem, fundamentalmente bom, se tivesse vivido no seculo VI ou no seculo XIII, seria um dos companheiros de S. Bento ou de S. Francisco de Assis. No seculo XIX é um excentrico, mas d'esse feitio de excentricidade que é indispensavel, porque a todos os tempos foram indispensaveis os herejes, a que hoje se chama dissidentes.

Oliveira Martins.

OS CAPTIVOS

Encostados ás grades da prisão,
Olham o céo os pallidos captivos.
Já com raios obliquos, fugitivos,
Despede o sol um ultimo clarão.

Entre sombras, no longe, vagamente,
Morrem as vozes na extensão saudosa.
Cae do espaço, pesada, silenciosa,
A tristeza das cousas, lentamente.

E os captivos suspiram. Bandos de aves
Passam velozes, passam apressados,
Como absortos em intimos cuidados,
Como absortos em pensamentos graves.

E dizem os captivos: Na amplidão
Jamais se extingue a eterna claridade…
A ave tem o vôo e a liberdade…
O homem tem os muros da prisão!