Dorme o teu somno, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

Um monge christão escreveria isto. E Anthero de Quental nem é christão, nem crê em Deus, nem na Virgem, segundo o sentido ordinario da palavra crer.

Blasphemar era bom n'outros tempos; para a ironia tambem a idade passou; finalmente para o exercicio litterario nunca se inclinou a penna que o poeta molhou sempre no seu sangue. Como explicar, pois, o phenomeno?

Por acaso subiu já o leitor ao cume de um monte sufficientemente alto para que toda a paysagem lhe apparecesse á vista, fundida a ponto de não distinguir uma arvore de um cazal, nem um rio de um valle sem curso de agua? Pois succede assim nas campinas da historia do pensamento humano, quando as olhamos das cumiadas luminosas da critica. Vêem-se as cousas na sua essencia, não importam os accidentes. O fetiche que o selvagem adora, a imagem perante a qual se prostra o commum dos crentes, o architecto universal dos pensadores livres, e finalmente esse quid innominado a que a philosophia moderna chamou Inconsciente—tudo isso é egualmente Deus: sómente é Deus percebido pela imaginação infantil, Deus percebido pela intelligencia vulgar, Deus percebido pelo saber incipiente, e Deus finalmente incomprehendido, mas sentido, pela sabedoria. E todas essas modalidades de uma mesma impressão, recebida e representada de fórma diversa, consoante a natureza e o estado de educação dos homens, são egualmente verdadeiras, egualmente santas e egualmente humoristicas, para aquelle que tem coração para sentir as cousas por dentro, e olhos para as ver de fora—objectivamente, como os allemães dizem, e nós diremos criticamente.

Eis ahi a suprema liberdade do espirito, o Nirvâna apenas intellectual, a que eu prefiro chamar impassibilidade subjectiva: um estado que permitte comprehender todas as cousas, analysando-as e classificando-as, sem todavia nos transmittir essa especie de frialdade de coração, propria dos naturalistas quando estudam uma rocha, uma planta ou um animal. O philosopho, impassivel ao analysar e classificar os phenomenos do espirito humano, ha-de misturar ao sorriso que provocam todas as vaidades e illusões, o amor que merecem todos os sentimentos ingenuos e fundamentalmente bons; hade alliar á comprehensão da nullidade extrinseca das cousas, a comprehensão da sua excellencia intrinseca; exigindo que o homem seja activo, porque a actividade é boa por ser indispensavel á saude do espirito, embora os objectos da actividade sejam as mais das vezes irritos e nullos, quando considerados em si proprios e isoladamente.

E eis ahi as razões porque eu não sou buddhista… nem Anthero de Quental o é, embora julgue sel-o. A evolução dolorosa que terminou com o seu ultimo soneto, esta longa e tempestuosa viagem atravez do mar tenebroso da phantasia metaphisica, parece ter concluido. A edade, talvez, acima de tudo, trouxe ao espirito do poeta uma paz illuminada de bondade e sabedoria, e como a sua alma é san e a sua intelligencia firme e sempre activa, é mais que provavel que o declinar da vida de Anthero de Quental enriqueça o peculio por signal bem pobre da philosophia portuguesa com algum trabalho tão digno de se conservar na memoria dos tempos, como estes Sonetos que são as amargas flores de uma mocidade. Esse trabalho, porem, não será um cathecismo buddhista, não pode ser nenhuma revelação milagrosa do verdadeiro systema, porque a sabedoria nos diz que toda a pretenção de Verdade é illusoria, pois sendo nós, a nossa intelligencia, os nossos pensamentos, simples e fugitivas contingencias, é loucura pensar que jamais possamos definir o Absoluto. Cada qual sente-o a seu modo, segundo o seu temperamento; e sabio é aquelle que se limita a registrar as relações das cousas.

III

Quem deante d'estes versos não sentir elevar-se-lhe o espirito, como n'uma oração, áquella especie de Deus que é compativel com o seu temperamento ou com o estado de educação do seu pensamento, é por que tem dentro do peito, no logar do coração, um seixo polido e frio. Quem, no meio do lidar da vida, roçando os braços pelas arestas cortantes que a erriçam de angulos, pousar o olhar da alma sobre um d'estes sonetos e não sentir o que os sequiosos sentem ao encontrarem um arroio de agua limpida, é porque tem a alma feita apenas de egoismo. Quem, emergindo dos montões de papelada que as imprensas vomitam diariamente, deitar os olhos sobre estas paginas, e não sentir o deslumbramento que os diamantes produzem, é porque a sua vista se embaciou com o exame dos livros grosseiros em todo o sentido, e a sua lingua perdeu o habito de fallar portuguez.

Um dos nossos mais queridos amigos, um dos que conhecem de perto Anthero de Quental—e sómente o conhece quem com elle viveu largo tempo na intimidade—interroga-me geralmente d'este modo: «E santo Anthero, como vae?»

Dil-o com a convicção quente dos artistas, mas eu, que o não sou, tenho a pôr embargos, porque a santidade não é planta adequada ao clima do nosso tempo. Exige uma porção de sentimento ingenuo que já não ha nos ares que respiramos.