Na esphera do invisivel, da intangivel,
Sobre desertos, vacuo, soledade,
Vôa e paira o espirito impassivel

presidindo á evolução dos seres (V. o soneto Evolução) desde a rocha até ao homem, evolução que seria absolutamente inexpressiva se não tivesse um destino, um fim, um ideal. A theoria do progresso indefinido é, com effeito, racionalmente absurda. Esse destino, para os neo-buddhistas, é o Nada transcendente; esse ideal é a Liberdade. A existencia está pois consagrada racionalmente: falta consagral-a sentimentalmente. Falta ainda ao systema um medianeiro: é o Amor.

Porém o coração feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do penar tornado crente,

Respondeu: D'esta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se é isto a vida,
Nem foi de mais o desengano e a dor.

O Universo está pois construido e sanctificado na mente do poeta e na razão do philosopho. Dir-se-ha portanto que a chimera de que a principio fallámos ficou desvendada, o problema resolvido, conciliada a visão com a razão, e que nos não resta mais do que fazermo-nos todos buddhistas? Supprema illusão! Creia-o embora o poeta: eu, como critico, observando que o pensamento humano, desde que existe e trabalha, progride sempre, com effeito, mas progride em tres estradas parallelas que, por serem parallelas, nunca podem encontrar-se, atrevo-me a affirmar a irreductibilidade do mysticismo, racional ou imaginativamente concebido, e do naturalismo, ponderada ou orgiacamente realisado. Atrevo-me a dizer que estes dois feitios ou temperamentos são constitucionaes do espirito humano, e que da coexistencia necessaria d'elles resulta um terceiro—o sceptico, o critico, o que provêm da comparação de ambos, e por isso não tem côr, nem é affirmativo; dando-se melhor com a natureza do que com a phantasmagoria, preferindo a harmonia mais ou menos equilibrada, ou mais ou menos claudicante do hellenismo, á orgia desenfreada dos orientaes; considerando a existencia como um compromisso, o dever como uma condição da vida, mas tambem a fraqueza como uma condição dos homens. Estes tres temperamentos são correspondentes a typos eternos e irreductiveis da consciencia humana; e, se o buddhismo é a melhor religião para um mystico do seculo XIX, saturado de sciencia e derreado de cogitações, o christianismo, como directo herdeiro do hellenismo, hade eternamente satisfazer melhor os scepticos e os naturalistas, cujo numero é e foi sempre infinitamente maior, entre os europeos.

«Um hellenismo coroado por um buddhismo» eis a formula com que mais de uma vez Anthero de Quental me tem exprimido o seu pensamento—a sua chimera! Chimera, digo, por que a corôa não nos póde assentar na cabeça, sob pena de a crivar de espinhos e de a deixar escorrendo sangue. Fundar o principio da acção na inercia systematica, a realidade no não-ser, a vida no anniquilamento, só é praticamente acceitavel para o commum de homens quando acreditem na metempsycose, dogma tão infantilmente mythico do buddhismo como v. g. o inferno do christianismo. Ao christianismo, porém, tirando-se-lhe tudo quanto a imaginação semita deu para a sua formação, fica ainda o hellenismo, isto é, um idealismo mais ou menos pantheista e uma theoria moral—cousas que eu não affirmo que resistam a uma analyse rigorosamente logica, por isso mesmo que todo o nosso conhecimento racional das cousas assenta apenas sobre axiomas do senso commum—ao passo que, em se tirando a metempsycose ao buddhismo, o buddhismo reduz-se a uma nevoa de abstracções.

Pobre humanidade, se se visse condemnada á coroação buddhista! Nós europeos, incapazes de nos sujeitarmos ao regime da contemplação inerte, soffreriamos as agonias, experimentariamos as afflicções do poeta que, tendo no peito um coração activo, tem na cabeça uma imaginação mystica, e, para obedecer ao pensamento, tortura o coração, sem poder tambem esmagal-o sob o mando da intelligencia.

D'este cruel estado vêm os documentos que attestam a transformação soffrida pela ironia dos periodos anteriores. Que nome se hade dar ao sentimento que inspira os sonetos Á Virgem Santissima e o Na mão de Deus que fecha o volume? Eu por mim chamarei humorismo transcendente a essa liga intima da piedade e da ironia, e declaro que nunca vi cousa parecida posta em verso. Em prosa, ha mais de um periodo de Renan inspirado por um espirito similhante, embora menos agudo.

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa,
E deixa-me sonhar a vida inteira!

A visão é a Virgem Santissima, e a poesia é tão sincera, tão verdadeira, tão cheia de piedade e uncção, que eu sei de mais de um livro de resas onde andam copias escriptas.