Já socega, depois de tanta lucta,
Já me descança em paz o coração…
Anthero de Quental resolveu destruir todas as suas poesias lugubres. Sentia remorsos por alguma vez ter estado n'uma disposição de animo que agora considerava com horror. Entendia que esses versos tetricos não podiam consolar ninguem, e fariam mal a muita gente. Destruiu-os, pois, com aquella violencia propria de um caracter intermittentemente meigo e frenetico como o de uma mulher. D'esse naufragio onde se perderam verdadeiras obras-primas, salvei eu as poesias que vão no fim d'este ensaio; e salvei-as porque as possuia entre os originaes remettidos em cartas, e mais de uma vez como texto de noticias do estado do seu espirito, ou cartas rimadas.
Que especie de paz era porem essa em que o seu coração descançava? Era o Nirvâna:
E quando o pensamento, assim absorto,
Emerge a custo d'esse mundo morto
E torna a olhar as cousas naturaes,
Á bella luz da vida, ampla, infinita
Só vê com tedio em tudo quanto fita
A illusão e o vasio universaes.
O Nirvâna é o ceu do buddhismo, a religião mais philosophica e menos phantasmagorica inventada pelos homens. É por este motivo que o buddhismo attrae hoje em dia todos os espiritos a um tempo racionalistas e mysticos, d'esta epocha em tudo similhante á alexandrina, menos no volume do saber positivo que já se não compadece com muitas das theorias sobre que os néoplatonicos especulavam. A theoria da Substancia levou-os a elles a uma concepção do Ser que produziu o mytho do Verbo christão, encarnado popularmente em Jesus-Christo. Ora hoje tudo isso vale apenas como documento historico, e, por paradoxal que isto pareça, o Não-Ser é, segundo a metaphisica contemporanea, a essencia de tudo o que existe. O Absoluto é o Nada. O Universo, a realidade inteira, são modalidades, aspectos fugitivos, que só se tornam verdades racionaes quando nos apparecem despidas de todos os accidentes. E como é pelos accidentes apenas que nós, distinguindo-as, as conhecemos, a realidade verdadeiramente e em si é Nada.
Religiosamente, Nada é egual a Nirvâna; e o buddhismo é a única religião que attingiu esta conclusão, summaria do pensamento scientifico moderno. O Nirvâna é esse estado em que os seres, despindo-se de todas as suas modalidades e accidentes, de todas as condições de realidade, condições que os limitam distinguindo-os entre si, adquirem a não-realidade (o não-contingente) e com ella a existencia absoluta e a absoluta liberdade. Essa liberdade é o typo e a essencia da vida espiritual; e o Nirvâna, puro Não-Ser para a intelligencia, é, para o sentimento moral, o symbolo e o vehiculo de toda a perfeição e virtude: radicalmente negativo na esphera da razão, é, na esphera do sentimento, absolutamente affirmativo. O pessimismo torna-se d'esta fórma um optimismo gigantesco; toda a inercia é condemnada, e o systema das cousas, agitando-se, movendo-se na direcção do anniquilamento final, move-se e agita-se no sentido de uma liberdade evolutivamente progressiva até attingir a plenitude. O Universo é uma grande vida que tem, no termo, o termo de todas as vidas—a morte, idealisada agora e tornada luminosa e appetecivel por essa idealisação.
Leiam-se os dois sonetos Redempção, talvez os mais bellos de todo o livro, e comprehender-se-ha melhor o que fica dito. Leia-se o Elogio da morte
Dormirei no teu seio inalteravel,
Na communhão da paz universal,
Morte libertadora e inviolavel!
e ver-se-ha quanto estamos longe do desespero tragico de outros annos. A tempestade acalmou.