Surges em vão, e em vão, por toda a parte,
Me envolves, me penetras, com amor…
Causas-me espanto a mim, causas-me horror,
E não te posso amar—não quero amar-te!
Symbolo da Mentira universal,
Da apparencia das cousas fugitivas,
Que esconde, nas moventes perspectivas,
Sob o eterno sorriso o eterno Mal,
Symbolo da Illusão, que do infinito
Fez surgir o Universo, já marcado
Para a dor, para o mal, para o peccado,
Symbolo da existencia, sê maldito!
A FADA NEGRA
Uma velha de olhar mudo e frio,
De olhos sem cor, de labios glaciaes,
Tomou-me nos seus braços sepuleraes.
Tomou-me sobre o seio ermo e vasio.
E beijou-me em silencio, longamente,
Longamente me unio á face fria…
Oh! como a minha alma se estorcia
Sob os seus beijos, dolorosamente!
Onde os labios pousou, a carne logo
Myrrou-se e encaneceu-se-me o cabello,
Meus ossos confrangeram-se. O gelo
Do seu bafo seccava mais que o fogo.
Com seu olhar sem cor, que me fitava,
A Fada negra me qualhou o sangue.
Dentro em meu coração inerte e exangue
Um silencio de morte se engolfava.
E volvendo em redor olhos absortos,
O mundo pareceu-me uma visão,
Um grande mar de nevoa, de illusão,
E a luz do sol como um luar de mortos…
Como o espectro d'um mundo já defuncto,
Um farrapo de mundo, nevoento,
Ruina aerea que sacode o vento,
Sem cor, sem consistencia, sem conjuncto…