E quanto adora quem adora o mundo,
Brilho e ventura, esperar, sorrir,
Eu vi tudo oscilar, pender, cahir,
Inerte e já da cor d'um moribundo.
Dentro em meu coração, n'esse momento,
Fez-se um buraco enorme—e n'esse abysmo
Senti ruir não sei que cataclismo,
Como um universal desabamento…
Razão! velha de olhar agudo e cru
E de halito mortal mais do que a peste!
Pelo beijo de gelo que me deste,
Fada negra, bemdita sejas tu!
Bemdita sejas tu pela agonia
E o lucto funeral d'aquella hora
Em que eu vi baquear quanto se adora,
Vi de que noite é feita a luz do dia!
Pelo pranto e as torturas bemfazejas
Do desengano… pela paz austera
D'um morto coração, que nada espera,
Nem deseja tambem… bemdita sejas!
*1860—1862*
IGNOTO DEO
Que belleza mortal se te assemelha,
Ó sonhada visão d'esta alma ardente,
Que reflectes em mim teu brilho ingente,
Lá como sobre o mar o sol se espelha?
O mundo é grande—e esta ancia me aconselha
A buscar-te na terra: e eu, pobre crente,
Pelo mundo procuro um Deus clemente,
Mas a ara só lhe encontro… nua e velha…
Não é mortal o que eu em ti adoro.
Que és tu aqui? olhar de piedade,
Gota de mel em taça de venenos…