Quem fôra tão ditoso que olvidasse…
Mas nem seu mal com elle então dormira,
Que sempre o mal peor é ter nascido!
A M. C.
Não busco n'esta vida gloria ou fama:
Das turbas que me importa o vão ruído?
Hoje, deus… e amanhã, já esquecido
Como esquece o clarão de extincta chama!
Foco incerto, que a luz já mal derrama,
Tal é essa ventura: eccho perdido,
Quanto mais se chamou, mais escondido
Ficou inerte e mudo á voz que o chama.
D'essa coroa é cada flor um engano,
É miragem em nuvem illusoria,
É mote vão de fabuloso arcano.
Mas coroa-me tu: na fronte ingloria
Cinge-me tu o louro soberano…
Verás, verás então se amo essa gloria!
AD AMICOS
Em vão luctamos. Como nevoa baça,
A incerteza das cousas nos envolve.
Nossa alma, em quanto cria, em quanto volve,
Nas suas proprias redes se embaraça.
O pensamento, que mil planos traça,
É vapor que se esvae e se dissolve;
E a vontade ambiciosa, que resolve,
Como onda entre rochedos se espedaça.
Filhos do Amor, nossa alma é como um hymno
Á luz, á liberdade, ao bem fecundo,
Prece e clamor d'um presentir divino;