Mas n'um deserto só, arido e fundo,
Ecchoam nossas vozes, que o Destino
Paira mudo e impassivel sobre o mundo.
A um crucifixo
Ha mil annos, bom Christo, ergueste os magros braços
E clamaste da cruz: ha Deus! e olhaste, ó crente,
O horizonte futuro e viste, em tua mente,
Um alvor ideal banhar esses espaços!
Porque morreu sem eccho o eccho de teus passos,
E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente?
Morreste… ah! dorme em paz! não volvas, que descrente
Arrojáras de nova á campa os membros lassos…
Agora, como então, na mesma terra erma,
A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,
Sob o mesmo ermo céo, frio como um sudario…
E agora, como então, viras o mundo exangue,
E ouviras perguntar—de que servio o sangue
Com que regaste, ó Christo, as urzes do Calvario?—
Desesperança
Vae-te na aza negra da desgraça,
Pensamento de amor, sombra d'uma hora,
Que abracei com delirio, vae-te, embora,
Como nuvem que o vento impelle… e passa.
Que arrojemos de nós quem mais se abraça,
Com mais ancia, á nossa alma! e quem devora
D'essa alma o sangue, com que vigora,
Como amigo commungue á mesma taça!
Que seja sonho apenas a esperança,
Emquanto a dor eternamente assiste.
E só engano nunca a desventura!