Se era silencio soffrer fôra vingança!..
Envolve-te em ti mesma, ó alma triste,
Talvez sem esperança haja ventura!
BEATRICE
Depois que dia a dia, aos poucos desmaiando,
Se foi a nuvem d'ouro ideal que eu vira erguida:
Depois que vi descer, baixar no céo da vida
Cada estrella e fiquei nas trevas laborando:
Depois que sobre o peito os braços apertando
Achei o vacuo só, e tive a luz sumida
Sem ver já onde olhar, e em todo vi perdida
A flor do meu jardim, que eu mais andei regando:
Retirei os meus pés da senda dos abrolhos,
Virei-me a outro céo, nem ergo já meus olhos
Senão á estrella ideal, que a luz d'amor contém…
Não temas pois—Oh vem! o céo é puro, e calma
E silenciosa a terra, e doce o mar, e a alma…
A alma! não vês tu? mulher, mulher! oh vem!
1862—1866
AMOR VIVO
Amar! mas d'um amor que tenha vida…
Não sejam sempre timidos harpejos,
Não sejam só delirios e desejos
D'uma douda cabeça escandecida…
Amor que vive e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser—e não só beijos
Dados no ar—delirios e desejos—
Mas amor… dos amores que têm vida…