Ou, vendo o mar, das ermas cumiadas,
Contemplamos as nuvens vespertinas,
Que parecem phantasticas ruinas
Ao longe, no horisonte, amontoadas:

Quantas vezes, de subito, emmudeces!
Não sei que luz no teu olhar fluctua;
Sinto tremer-te a mão, e empallideces…

O vento e o mar murmuram orações,
E a poesia das cousas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.

NOCTURNO

Espirito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a lua,
Filho esquivo da noite que fluctua,
Tu só entendes bem o meu tormento…

Como um canto longinquo—triste e lento—
Que voga e sutilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento…

A ti confio o sonho em que me leva
Um instincto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Genio da Noite, e mais ninguem!

SONHO

Sonhei—nem sempre o sonho é cousa vã—
Que um vento me levava arrebatado,
Atravez d'esse espaço constellado
Onde uma aurora eterna ri louçã…