V

Mas a Idea quem é? quem foi que a vio,
Jámais, a essa encoberta peregrina?
Quem lhe beijou a sua mão divina?
Com seu olhar de amor quem se vestio?

Pallida imagem, que a agua de algum rio,
Reflectindo, levou… incerta e fina
Luz, que mal bruxulêa pequenina…
Nuvem, que trouxe o ar, e o ar sumio…

Estendei, estendei-lhe os vossos braços,
Magros da febre d'um sonhar profundo,
Vós todos que a seguis n'esses espaços!

E emtanto, oh alma triste, alma chorosa,
Tu não tens outra amante em todo o mundo
Mais que essa fria virgem desdenhosa!

VI

Outra amante não ha! não ha na vida
Sombra a cobrir melhor nossa cabeça,
Nem balsamo mais doce, que adormeça
Em nós a antiga, a secular ferida!

Quer fuja esquiva, ou se offereça erguida,
Como quem sabe amar e amar confessa,
Quer nas nuvens se esconda ou appareça,
Será sempre ella a esposa promettida!

Nossos desejos para ti, oh fria,
Se erguem, bem como os braços do proscrito
Para as bandas da patria, noite e dia.

Podes fugir… nossa alma, delirante,
Seguir-te-ha a travez do infinito,
Até voltar comtigo, triumphante!