(A Fernando Leal)

Noite, vão para ti meus pensamentos,
Quando olho e vejo, á luz cruel do dia,
Tanto esteril luctar, tanta agonia,
E inuteis tantos asperos tormentos…

Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exhalam da tragica enxovia…
O eterno Mal, que ruge e desvaria,
Em ti descança e esquece, alguns momentos…

Oh! antes tu tambem adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalteravel,
Cahindo sobre o mundo, te esquecesses,

E elle, o mundo, sem mais luctar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolavel,
Noite sem termo, noite do Não-ser!

EM VIAGEM

Pelo caminho estreito, aonde a custo
Se encontra uma só flor, ou ave, ou fonte,
Mas só bruta aridez de aspero monte
E os soes e a febre do areal adusto,

Pelo caminho estreito entrei sem susto
E sem susto encarei, vendo-os defronte,
Phantasmas que surgiam do horizonte
A accommetter meu coração robusto…

Quem sois vós, peregrinos singulares?
Dor, Tedio, Desenganos e Pesares…
Atraz d'elles a Morte espreita ainda…

Conheço-vos. Meus guias derradeiros
Sereis vós. Silenciosos companheiros,
Bemvindos, pois, e tu, Morte, bemvinda!