Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes?»
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem:—«Homens! porque é que nos criastes?»

VISÃO

(A J. M. Eça de Queiroz)

Eu vi o Amor—mas nos seus olhos baços
Nada sorria já: só fixo e lento
Morava agora ali um pensamento
De dor sem tregoa e de intimos cançaços.

Pairava, como espectro, nos espaços,
Todo envolto n'um nimbo pardacento…
Na attitude convulsa do tormento,
Torcia e retorcia os magros braços…

E arrancava das aras destroçadas
A uma e uma as pennas maculadas,
Soltando a espaços um soluço fundo,

Soluço de odio e raiva impenitentes…
E do phantasma as lagrimas ardentes
Cahiam lentamente sobre o mundo!

1880—1884

Transcendentalismo