(A J. P. Oliveira Martins)
Já socega, depois de tanta lucta,
Já me descança em paz o coração.
Cahi na conta, emfim, de quanto é vão
O bem que ao Mundo e á Sorte se disputa.
Penetrando, com fronte não enxuta,
No sacrario do templo da Illusão,
Só encontrei, com dor e confusão,
Trevas e pó, uma materia bruta…
Não é no vasto mundo—por immenso
Que elle pareça á nossa mocidade—
Que a alma sacia o seu desejo intenso…
Na esphera do invisivel, do intangivel,
Sobre desertos, vacuo, soledade,
Vôa e paira o espirito impassivel!
EVOLUÇÃO
(A Santos Valente)
Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo,
Tronco ou ramo na incognita floresta…
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquissimo inimigo…
Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pacigo…
Hoje sou homem—e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espiraes, na immensidade…