Deixai-os vir a mim, os que lidaram;
Deixai-os vir a mim, os que padecem;
E os que cheios de magua e tedio encaram
As proprias obras vans, de que escarnecem…

Em mim, os Soffrimentos que não saram,
Paixão, Duvida e Mal, se desvanecem.
As torrentes da Dor, que nunca param,
Como n'um mar, em mim desapparecem.—

Assim a Morte diz. Verbo velado,
Silencioso interprete sagrado
Das cousas invisiveis, muda e fria,

É, na sua mudez, mais retumbante
Que o clamoroso mar; mais rutilante,
Na sua noite, do que a luz do dia.

Na mão de Deus

(Á Ex.^{ma} Snr.^a Victoria de O. M.)

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descançou a final meu coração.
Do palacio encantado da Illusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortaes, com que se enfeita
A ignorancia infantil, despojo vão,
Depuz do Ideal e da Paixão
A forma transitoria e imperfeita.

Como criança, em lobrega jornada,
Que a mãe leva ao collo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto…
Dorme o teu somno, coração liberto,
Dorme na não de Deus eternamente!