LAÇO D'AMOR

A poesia As Estrellas appareceu pela primeira vez publicada na segunda parte da Beatrice (p. 27 a 31), mas sem titulo, e com a epigraphe Excelsior. O poeta leu-m'a em 1861 com o titulo As Estrellas, como uma das suas melhores Odes. No manuscripto que possuo tem a data:—Figueira, Setembro—1860; não apresenta variantes apreciaveis da edição do 1863, por isso a não reproduzimos.

T. B.

LAÇO D'AMOR

Ao amigo Santos Valente enviando-lhe para o seu Album a poesia AS ESTRELLAS

Que heide dar de melhor? Ai, n'estes tempos
De pobres affeições, de tibias crenças,
—Fonte que os sóes do estio tem seccado—
Aonde ha fé tam viva, que trasborde,
Enchendo um peito n'outro peito amigo?
Que esperanças cá da terra ha hi tam firmes,
Tam ricas de futuro, que dois sêres
Possam firmar-se n'ellas sem receio
E abandonar-se todo ao seu arrimo,
Qual braço de mulher em braço de homem?
E quem pode encontrar-se em egual via,
E ir, com norte egual, seguir seu rumo
Quando tantos caminhos vão cruzando
N'estes tempos o mundo do espirito?
Ah, n'este sec'lo, amigo, solitario
Cada qual segue triste a sua estrada,
Caminheiro de um dia, e silencioso,
Contando, como o avaro, os tristes restos
Das suas illusões, das suas crenças,
A si pergunta o que ficou de tudo;
Olha as bandas longiquas do horizonte
E de novo interroga, em desalento,
Se o futuro lhe guarda alguma esp'rança,
Se o abysmo é o termo da jornada?!

Se lá de longe em longe alguma tenda,
Se uma fonte que ensombra alta palmeira.
Lhe alveja no deserto; se inda um pouco
Lhe repousa a cabeça afadigada,
Não faz, crente no Deus que o tem guiado,
A oração da noite, a acção de graças
E, antes que cerre as palpebras, medita…

No repouso só busca o esquecimento:
Dorme o somno agitado de uma noite
Sob a tenda que o acaso lhe depara;
De manhã, sem levar uma saudade,
Sem as deixar tambem, eil-o seguindo
Do fatal peregrinar a longa via.

Que lhe importa o passado ou o futuro?
P'ra dôr que soffre em si tudo é presente,
Aqui, ali, em toda a parte o punge…
Quem lhe dera esquecer, não recordar-se…

Orações? são incenso cujo aroma
É de lagrimas… e as d'elle se hão seccado!
Orgulhoso na dôr, da dôr o orgulho
Fal-o erguer solitario e silencioso,
Como se ergue o granito no deserto
Ermo, nú… se medita… e só comsigo.