DEPOIS DE LER A SUA POESIA
Fique em silencio eterno a minha lyra;
Pomba do céo tu vae; Deus te bem fade,
N'esta alma em teu logar guardo a saudade,
Se a essencia sobrevive á flor que expira.
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Foi o canto do cysne, o canto derradeiro
D'aquella augusta voz que se esvaiu no ar;
Adeus da terna amante ao seu amor primeiro
Que eterno ella julgou, mas cedo viu findar;
Ultimo adeus de quem, ha pouco ainda crente
—N'uma hora apenas—vê, qual sombra na corrente,
Morrer-lhe as illusões co'a morte d'esse amor
E triste se envolveu no vêo de uma erma dôr.
Soffreu da soledade… E onde ha hi um peito
Que não soffra tambem, ainda ao mal affeito?
Soffreu da soledade em que a alma lhe ficou,
Depois que ao longe e triste o ecco se finou
D'aquella unica voz, que ainda repetia
A sua voz, bem como, á tarde em fins do dia,
A nuvem que passou reflecte um raio ao sol,
Que mesmo occulto a tinge aos fogos do arrebol.
Soffreu quando da sorte a mão pesada veiu
Poisar-lhe sobre o peito e comprimiu alli
A ancia que animára o arfar d'aquelle seio,
Seio que só bateu—poesia!—amor!—por ti!
E elle então disse: «Aqui deponho a minha lyra:
Se esta alma a outros céos, a outra patria aspira,
Se esta ancia infinita não posso aqui fartar,
Que val'—ecco sem voz—que val' o meu cantar?
Val' mais que eu, em silencio, espere o grande dia,
Cuja aurora immortal, em luz, em poesia,
Me hade envolver, e assim levar-me áquelle céo.
Céo do que amou, creu, esperou e soffreu.
Emtanto—esp'rando—viva em silencio profundo,
Deixando em vão rugir,—qual voz do mar—o mundo;
Aqui guardo a saudade, esse talisman só,
Como da flor já secca inda se guarda o pó.—»
Cobriu o rosto após co' manto da tristeza;
O sol d'aquelle céo fugiu ao longe… além…
E a noite sem luar, sem brilho, sem belleza
Ao negro que hia lá veiu ajuntar tambem.
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Poeta, essa não é tua missão. Curvar-se
Um momento é do homem; porém não prostrar-se
Gemendo em desalento, e face contra o chão,
Como quem acceitou da dôr a escravidão.
Poeta é quem tem fé, quem busca no futuro
A crença que lhe nega este presente impuro:
Não quem deixa cahir a lyra, não quem vae
Pedir ao desalento abrigo e amor de pae.
É virtude soffrer, nunca perder a crença;
É ter esp'rança tal que a dôr mais crua vença;
É não pedir seu premio aos homens, mas a Deus,
E passar n'este valle, o olhar fito nos céos.
Tal é tua missão:—Luctar! O soffrimento,
Ao pé do eterno bem, o que é mais que um momento?
Coimbra, Março, 1861
Como a poesia de João de Deus citada na epigraphe da p. 73, não foi incorporada nas collecções das Flores do Campo e Folhas Soltas, transcrevemol-a aqui para intelligencia do texto dos nossos cadernos manuscriptos de Coimbra, notando as variantes da primeira estrophe.