I
Eu amo a noite ás horas socegadas
Que o Senhor manda á terra, como balsamo
A tanta dôr que a punge, e o sol do dia
Parece escarnecer com tanto brilho,
Nem sabe respeitar; quando o silencio
Com manto protector envolve os tristes,
Os que choram saudades; quando o orvalho
Refresca o seio á flôr, e em cada balsa
A viração prepassa suspirando;
Quando é mais puro o ár, mais doce a brisa,
Mais sumidos, mais vagos os rumores,
E detraz da montanha, saudosa
Como a virgem dos sonhos, surge a lua.
II
Eu amo então a noite.—Paz e esperança
A quem soffre, buscando algum allivio;
Ao feliz exultando de alegrias
A lembrança de Deus a quem as deve;
A quem descreu de achar inda na terra
Ventura que lhe foge… o olvido ao menos;
A toda a crença um exultar de affectos;
A todo o desconforto, uma esperança;
A toda a natureza, amor e vida;
Eis o thesouro santo que nos abre
—A nós e ao mundo—a noite, eis seu tributo.
É doce então abrir os seios d'alma
Aos effluvios do céo: flor que hão crestado
Ardentias do sol, e ainda timida
Palpitando entre o susto e a esperança,
Retoma agora aos poucos novo alento
Ao sentir-se segura, e abrindo o calix
Estremece de amor a cada gôtta
Dos orvalhos do céo: como que a vida
Solta de tanto laço que a comprime,
Como gaz que ao calor se ha dilatado,
Se expande livre agora e cresce e absorve
Em si mil harmonias, mil poderes
Que esse universo tem: como as correntes
Occultas, que os oceanos communicam,
A natureza e o espirito permutam
Sympathias e forças, em que a alma
Mais cresce e mais comprehende, e mais abrange,
E n'este permutar de força e força
Quasi na vida universal se funda.
III
Passa a lua; do alto olhando a terra
Procura o triste por lhe dar allivio;
Prepassa a viração e busca do ermo
A florinha minada que refresque;
Corre manso o regato, e banha a erva
Que um pé calcou, e o sol deixou crestada;
Tremúla a estrella, symbolo de esperanças,
Enviam-se harmonias as espheras;
Tudo amor, tudo affectos communica;
E o espirito do homem busca livre
Da sob'rana harmonia a eterna fórmula,
Do eterno amor o fóco, a patria sua.
Lembranças de um viver já pressentido,
Ou memorias—talvez—de uma outra vida,
Que nos relembra vaga, e como em sonhos,
E sobre o fundo d'esta se destacam
Como pela penumbra um vulto incerto…
Aspirações, memorias, ou saudades,
O que nos enche o peito e nos enleva
Como um sonho de amor—e mais ainda—
Senão este mysterio do futuro,
Esta attracção do sêr a vida nova,
Que se foge e se busca e nos revela
A vida universal, então sentida
Mais forte na harmonia do Universo?
IV
Busca-se, anceia-se, e o alvejar da campa
Mais que o sorriso de uma amante é doce;
A lembrança da morte mais que a esp'rança
Do poder ou da gloria nos enleva;
Terrores, incertezas se dissipam,
E sem saudade, sem temor se anhela
Mais mundo, mais espaço, e viver novo!