Umas tem mando nos áres;
Outras, na terra, nos mares;
E todas trazem na mão
Aquella vara famosa,
A vara maravilhosa,
A varinha do condão.
O que ellas querem, n'um pronto,
Fez-se alli! parece um conto…
Mesmo de fadas… eu sei!
São condões que dão á gente,
Ou dinheiro reluzente
Ou joias, que nem um rei!
A mais pobre creancinha
Se quiz ser sua madrinha,
Uma fada… ai, que feliz!
São palacios, n'um momento…
Belleza, que é um portento…
Riqueza, que nem se diz…
Ou então, prendas, talento,
Sciencia, discernimento,
Graças, chiste, discrição…
Vê-se o pobre innocentinho
Feito um sabio, um adivinho,
Que aos mais sabios vae á mão!
Mas, com tudo isto, as fadas
São muito desconfiadas;
Quem as vê não hade rir.
Querem ellas que as respeitem,
E não gostam que as espreitem,
Nem se lhes hade mentir.
Quem as offende… Cautela!
A mais risonha, a mais bella,
Torna-se logo tão má,
Tão cruel, tão vingativa!
É inimiga aggressiva,
É serpente que alli está!
E têm vinganças terriveis!
Semeiam cousas horriveis,
Que nascem logo no chão…
Linguas de fogo que estalam!
Sapos com azas, que falam!
Um anão preto! um dragão!
Ou deitam sortes na gente…
O nariz faz-se serpente,
A dar pulos, a crescer…
É-se morcego ou veado…
E anda-se assim encantado,
Emquanto a fada quizer!
Por isso quem por estradas
Fôr, de noite, e vir as fadas
Nos altos mirando o céo,
Deve com geito falar-lhes
Muito cortez e tirar-lhes
Até ao chão o chapéo.
Porque a fortuna da gente
Está ás vezes sómente
N'uma palavra que diz;
Por uma palavra, engraça
Uma fada com quem passa,
E torna-o logo feliz.