Quantas vezes, já deitado,
Mas sem somno, inda acordado,
Me ponho a considerar
Que condão eu pediria,
Se uma fada, um bello dia,
Me quizesse a mim fadar…
O que seria? um thesouro?
Um reino? um vestido de ouro?
Ou um leito de marfim?
Ou um palacio encantado,
Com seu lago prateado
E com pavões no jardim?
Ou podia, se eu quizesse,
Pedir tambem que me désse
Um condão, para falar
A lingua dos passarinhos,
Que conversam nos seus ninhos…
Ou então, saber voar!
Oh, se esta noite, sonhando,
Alguma fada, engraçando
Commigo (podia ser!)
Me tocasse da varinha,
E fosse minha madrinha
Mesmo a dormir, sem a vêr…
E que ámanhã acordasse
E me achasse… eu sei? me achasse
Feito um principe, um emir!…
Até já, imaginando,
Se estão meus olhos fechando…
Deixa-me já, já dormir!
XXVIII
O SOL DO BELLO
O SOL DO BELLO
RECITADA NA NOITE DE 13 DE MAIO DE 1862, NO THEATRO ACADEMICO, POR A. FIALHO MACHADO
O sol do bello a todos alumia!
Sua auréola cinge cada fronte
Bem como o rei do dia, mal desponte,
Dá luz egual a todo o sêr creado!
Este baptismo santo envolve e lava
Todos na mesma onda inspiradora!
Queima com a mesma chamma abrasadora!
Orvalha em egual pranto derramado!
Juntas as almas, que o sentir enlaça,
Commungam, como irmãs, na mesma taça!