VERSÕES E IMITAÇÕES
EXCERPTOS DE UMA TRADUCÇÃO DO FAUSTO
I
*DEDICATORIA*
Ainda uma outra vez, imagens fluctuantes,
Vos ergueis ante mim, como outr'ora radiantes
Ante mim, que vos fito em vago enleio incerto!
Voaes… mas eu hesito em vos retêr agora…
Assusta o meu olhar a luz da vossa aurora,
E teme as illusões, meu coração desperto!
Que aérea multidão! que virginaes choreas!
Meu velho coração, pois que inda te incendeias
Não é melhor ceder? sim, sim, rejuvenesce!
D'entre as nevoas surgi, visões do tempo antigo!
Sim, levae-me tambem no vosso bando amigo,
Levae-me aonde ha luz e cantos, e alvorece!
Reconheço entre vós as sombras fugidías
De outro tempo melhor, de mais alegres dias:
Meu coração evoca imagens adoradas…
Susurra em torno a mim voz de saudoso encanto:
É o primeiro amor, que passa como um canto
De antigas tradições vagamente escutadas…
E as lagrimas, tambem, correm silenciosas!
O lamento dorido, as magoas saudosas,
Renovam-se; desperta a dor que dormitava…
Sim, a dor, ante mim, mostra-me os dias idos,
E nomeia-me os bens, sob meus pés fundidos,
Quando em minha illusão julguei que os abraçava!
Almas a quem cantei, não me ouvireis agora!
O circulo fiel dos amigos d'outr'ora
Desfez-se como a voz d'este canto primeiro!
Rodeia-me hoje a turba: o seu applauso é triste:
Quem folgou de escutar-me, em tempo, se inda existe
Disperso erra no mundo, ah! n'um mundo estrangeiro…
Como a saudade então, uma longa saudade,
D'esse reino encantado, onde ha paz e verdade,
Me falla ao coração n'uma queixa sumida!
Meu canto sobe e desce, incerto e fluctuante,
Sobe e desce indeciso e com tom murmurante,
Bem como uma harpa eólea aos ventos suspendida.