E tremo sem saber porquê, e lentamente
Sinto o pranto nascer, correndo docemente,
Ungindo o coração que embala e adormece…
O que tenho, o que sou, mal o vejo a distancia…
É a nuvem no mar, é um sonho de infancia…
Só, á luz da saudade, o passado apparece!

II

*NA CATHEDRAL*

Officios; orgão e canto. MARGARIDA no meio da multidão. O ESPIRITO RUIM por detrás d'ella.

O ESPIRITO RUIM

Como foste, como eu te conheci,
E como estás mudada, Margarida!
Que pensamento é que te traz aqui?
Ainda adormecida,
Tua alma ha pouco, lembras-te? buscava,
Esta sombra do altar—mas não chorava,
Não, não chorava as lagrimas que choras!
Rezar era então brinco de criança,
Para ti, innocente…
Lias nas tuas Horas
As tuas orações—e docemente
Sorria a Deus tua infantil confiança…
Margarida!
Quantas ruinas em tão curta vida!
Que pensamento occulto te tortura?
E, no teu coração,
Que peccado te roe essa alma impura?
Não rezes: Deus não te ouve a oração!
Rezas por tua mãe? por ti foi morta,
Sim, morta lentamente, a infeliz!
Olha o sangue espalhado á tua porta…
De quem é elle, diz?
E escuta! n'esse seio criminoso
O que é que já se move?
Sim, o que é que se agita, e te commove
Com um presentimento doloroso?

MARGARIDA

Ai de mim! ai de mim! quem podesse livrar-me
D'esta turba cruel de negros pensamentos!
Vejo-os de toda a parte e a todos os momentos,
Erguer-se em volta a mim, correndo a torturar-me!

CÔRO E ORGÃO

Dies irae, dies illa
Solvet saeclum in favilla.