Era uma vez um bom rei
Em Thule—essa ilha distante,
Ao morrer, deixou-lhe a amante
Um copo de ouro de lei.

Era um copo de oiro fino
Todo lavrado a primor;
Se fosse o calix divino
Não lhe tinha mais amor.

Seus tristes olhos leaes
Não tinham outra alegria:
E só por elle bebia,
Nos seus banquetes reaes.

Chegada a hora da morte
Poz-se o rei a meditar
Grandezas da sua sorte
Seus reinos á beira-mar.

Deixava um rico thesouro,
Palacios, villas, cidades:
De nada tinha saudades,
A não ser do copo de ouro.

No castello da deveza,
N'aquellas salas sem fim,
Mandou armar uma meza
Para um ultimo festim.

Convidou sem mais tardar
Os seus fieis cavalleiros,
Para os brindes derradeiros
No castello á beira-mar.

Então, vasando-o de um trago,
E com entranhada magoa,
Poz nas ondas o olhar vago
E atirou com a taça á agua.

Viu-a boiar suspendida,
'Té que as ondas a levaram:
Os olhos se lhe toldaram,
E não bebeu mais em vida!

1870-71.