O meu ultimo folheto é de 1871. Intitula-se: Carta ao ex.^{mo} marquez de Avila e Bolama, sobre a Portaria que mandou fechar as Conferencias do Casino lisbonense. As Conferencias Democraticas tinham sido fundadas por mim com o concurso de homens moços (que quasi todos têm hoje nome na politica) e eram muito frequentadas pelo escol da classe operaria. Pareceram perigosas ao governo, que arbitrariamente as mandou fechar. O meu folheto parece que concorreu, segundo se disse, para a queda do ministerio, que, de resto, não podia durar muito, sendo dos chamados de transição. É uma diatribe, mas eloquente.

Entre esses dous extremos, colloca-se a famosa Questão Litteraria ou a Questão de Coimbra, que durante mais de 6 mezes agitou o nosso pequeno mundo litterario, e foi o ponto de partida da actual evolução da litteratura portugueza. Os novos datam todos de então. O Hegeltanismo dos Coimbrões fez explosão.

O velho Castilho, o Arcade posthumo, como então lhe chamaram, viu a geração nova insurgir-se contra o sua chefatura anachronica. Houve em tudo isto muita irreverencia e muito excesso; mas é certo que Castilho, artista primoroso mas totalmente destituido de idéa, não podia presidir, como pretendia, a uma geração ardente, que surgia, e antes de tudo aspirava a uma nova direcção, a orientar-se como depois se disse, nas correntes do espirito da época. Havia na mocidade uma grande fermentação intellectual, confusa, desordenada, mas fecunda: Castilho, que a não comprehendia, julgou poder supprimil-a com processos de velho pedagogo. Inde irae. Rompi eu o fogo com o folheto Bom senso e Bom gosto, carta ao ex.^{mo} A. F. de Castilho. Seguiu-se Theophilo Braga, seguiram-se depois muitos outros, la melée devint génerale. Todo o inverno de 1865 a 66 se passou n'este batalhar. Quando o fumo se dissipou, o que se viu mais claramente foi que havia em Portugal um grupo de 16 a 20 rapazes, que não queriam saber da Academia nem dos Academicos, que já não eram catholicos nem monarchicos, que fallavam de Goethe e Hegel como os velhos tinham fallado de Chateaubriand e de Cousin; e de Michelet e Proudhon, como os outros de Guizot e Bastiat; que citavam nomes barbaros e sciencias desconhecidas, como glottica, philologia etc., que inspiravam talvez pouca confiança pela petulancia e irreverencia, mas que inquestionavelmente tinham talento e estavam de boa fé e que, em summa, havia a esperar d'elles alguma cousa, quando assentassem.

Os factos confirmaram esta impressão: os 10 ou 12 primeiros nomes da litteratura de hoje sahiram todos (salvos 2 ou 3) da Escola Coimbrã ou da influencia d'ella. O Germanismo tomara pé em Portugal. Abrira-se uma nova éra para o pensamento portuguez. O velho Portugal ainda conservado artificialmente por uma litteratura de convenção morrera definitivamente. D'esta especie de revolução fui eu o porta estandarte, com o que me não desvaneço sobre maneira, mas tambem não me arrependo. Se a uma ordem artificial se seguia uma especie de anarchia, é isso ainda assim preferivel, porque uma contem germens de vida, e da outra nada havia a esperar. Pertence ainda a essa epoca o folheto: Dignidade das Lettras e Litteraturas officiaes.

Durante o anno de 1867 e parte de 68 viajei em França e Hespanha e visitei os Estados Unidos da America. No fim d'esse anno de 68 publiquei o folheto: Portugal perante a Revolução de Hespanha. Advogava ahi a União Iberica por meio da Republica Federal, então representada em Hespanha por Castellar, Pi y Margall e a maioria das Côrtes Constituintes. Era uma grande illusão, da qual porém só desisti (como de muitas outras d'esse tempo) á força de golpes brutaes e repetidos da experiencia. Tanto custa a corrigir um certo falso idealismo nas cousas da sociedade!

O meu Discurso sobre as causas da decadencia dos Povos peninsulares nos seculos XVII e XVIII, embora pizasse um terreno mais solido, o terreno da historia, resente-se ainda muito da influencia das ideias politicas preconcebidas, da critica historica com tendencias. É do anno de 1871.

N'esse anno e no seguinte tomei parte activa no movimento socialista, que se iniciava em Lisboa, e tanto n'essa cidade como no Porto escrevi bastante nos jornaes politicos. Incidentemente publiquei n'um pequeno volume, uma serie de estudos com o titulo de Considerações sobre a Philosophia da Historia litteraria portugueza. Creio que é, ainda assim, o que fiz de melhor, ou pelo menos, de mais razoavel em prosa. Confesso sinceramente que dou muita pouca importancia a todos esses meus escriptosinhos de occasião, e até, ás vezes, preciso de certa força de reflexão para me não envergonhar de ter publicado tanta cousa pouco pensada. E todavia era applaudido! Porque? Em primeiro logar, creio eu, porque os que me applaudiam não pensavam, ainda assim, mais nem melhor do que eu. Em segundo logar, porque me concedeu a natureza o dom da prosa portugueza, não da prosa de convenção, arremedando o estylo dos seculos XVI e XVII mas de uma prosa que tem o seu typo na lingua viva e falada hoje, analytica já nos movimentos da phrase, mas na linguagem ainda e sempre portugueza. Isso agradou, porque era o que convinha e, em summa, acabei por ser citado como modelo da prosa moderna! É certo porém que tudo aquillo são escriptinhos de accasião e que, em prosa, não produzi ainda o que se chama uma obra, isto é, uma cousa original, pessoal e aprofundada. Ha muito tempo que sei escrever, mas foi necessario chegar aos 45 annos para ter que escrever. Por isso, deixemos toda essa farragem que não cito senão para corresponder ao desejo de v. ex.^a na materia bibliographica. E passemos aos versos.

Além da collecção de sonetos que v. ex.^a conhece, publiquei ainda mais dois volumes. Um, de 1872, com o titulo de Primaveras Romanticas contêm os meus Juvenilia, as poesias de amor e phantasia, compostas na sua quasi totalidade, entre 1860 e 65, que andavam dispersas por varias publicações periodicas, e que só em 72 reuni em volume, juntamente com mais alguma cousa posterior, do mesmo caracter e estylo. Talvez a melhor maneira de caracterisar esse volume será dizer em francez que é du Heine de deuxième qualité. Como muitas pessoas, por cá, têm achado essa semelhança, por isso a indico. A 2.^a secção dos Sonetos completos que não contêm senão composições d'esse periodo dará a v. ex.^a uma idéa sufficiente do fundo e do estylo d'aquella poesia; assim como a 3.^a secção lhe dará idéa das Odes modernas, cuja 1.^a edição appareceu em 1865. Não sei bem como caracterisar este livro: não é certamente mediocre; ha n'elle paixão sincera e elevação de pensamento; mas além de declamatoria e abstracta, por vezes aquella poesia é indistincta, e não define bem e typicamente o estado de espirito que a produziu. O que ella representa perfeitamente é a singular alliança, a que atraz me referi já, do naturalismo hegeliano e do humanitarismo radical francez. Acima de tudo é, como dizem os francezes, poesia de combate: o pamphletario divisa-se muitas vezes por detraz do poeta, e a egreja, a monarchia, os grandes do mundo, são o alvo das suas apostrophes de nivelador idealista. N'outras composições, é verdade, o tom é mais calmo e patenteia-se n'ellas a intenção philosophica do livro, vaga sim, mas humana e elevada. A novidade, o arrojo, talvez a mesma indeterminação do pensamento, apenas vagamente idealista e humanitaria, fizeram a fortuna do livro, junto da geração nova, o que prova pelo menos que veiu no seu momento: é tudo quanto poderei dizer. Correspondem a este cyclo os sonetos comprehendidos na 3.^a secção dos Sonetos completos, muitos dos quaes já entraram nas Odes modernas. Em 1874 teve este livro uma 2.^a edição muito correcta e contendo varias composições novas que considero, tal como é e com todos os defeitos inherente á propria essencia do genero, como definitiva.

N'esse mesmo anno de 1874 adoeci gravissimamente, com uma doença nervosa de que nunca mais pude restabelecer-me completamente. A forçada inacção, a perspectiva da morte visinha, a ruina de muitos projectos ambiciosos e uma certa acuidade de sentimentos, propria da nevrose, puzeram-me novamente e mais imperiosamente do que nunca, em face do grande problema da existencia. A minha antiga vida pareceu-me vã e a existencia em geral incomprehensivel. Da lucta que então combati, durante ou 5 ou 6 annos, com o meu proprio pensamento o meu proprio sentimento que me arrastavam para um pessimismo vacuo e para o desespero, dão testemunha, além de muitas poesias, que depois destrui (subsistindo apenas as que o Oliveira Martins publicou na sua introducção aos Sonetos) as composições que perfazem a secção 4.^a (de 1874 a 80) do meu livrinho. Conhece-as v. ex.^a, não preciso commental-as. Direi sómente que esta evolução de sentimento correspondia a uma evolução de pensamento. O naturalismo, ainda o mais elevado e mais harmonico, ainda o de um Goethe ou de um Hegel, não tem soluções verdadeiras, deixa a consciencia suspensa, o sentimento, no que elle tem de mais profundo, por satisfazer. A sua religiosidade é falsa, e só apparente; no fundo não é mais do que um paganismo intellectuel e requintado. Ora eu debatia-me desesperadamente, sem poder sahir do naturalismo, dentro do qual nascera para a intelligencia e me desenvolvera. Era a minha atmosphera, e todavia sentia-me asphixiar dentro d'ella. O Naturalismo, na sua fórma empirica e scientifica, é o struggle for life, o horror de uma lucta universal no meio da cegueira universal; na sua fórma transcendente é uma dialetica gelada e inerte, ou um epicurismo egoistamente contemplativo. Eram estas as consequencias que eu via sahir da doutrina com que me creara, da minha alma mater, agora que a interrogava com a seriedade e a energia de quem, antes de morrer, quer ao menos saber para que veiu ao mundo.

A reacção forças moraes e um novo esforço do pensamento salvaram-me do desespero. Ao mesmo tempo que percebia que a voz da consciencia moral não pode ser a unica voz sem significação no meio das vozes innumeras do Universo, refundindo a minha educação philosophica, achava, quer nas doutrinas, quer na historia, a confirmação d'este ponto de vista. Voltei a ler muito os philosophos, Hartmann, Lange, Du Bois-Raymond e, indo ás origens do pensammento allemão, Leibnitz e Kant. Li ainda mais os moralistas e mysticos antigos e modernos, entre todos a Theologia Germanica e os livros buddhistas. Achei que o mysticismo, sendo o desenvolvimento psychologico, deve corresponder, a não ser a consciencia humana extravagancia no meio do Universo, á essencia mais funda das cousas.