O naturalismo appareceu-me, não já como a explicação ultima das coisas, mas apenas como o systema exterior, a lei das apparencias e a phenomenologia do Sêr. No Psychismo, isto é, no Bem e na Liberdade moral, é que encontrei a explicação ultima e verdadeira de tudo, não só do homem moral mas de toda a natureza, ainda nos seus momentos physicos elementares. A monadologia de Leibnitz, convenientemente reformada, presta-se perfeitamente a esta interpretação do mundo, ao mesmo tempo naturalista e espiritualista. O espirito é que é o typo da realidade: a natureza não é mais do que uma longiqua imitação, um vago arremedo, um symbolo obscuro e imperfeito do espirito. O Universo tem pois como lei suprema o bem, essencia do espirito. A liberdade, em despeito do determinismo inflexivel da natureza, não é uma palavra vã: ella é possivel e realiza-se na santidade. Para o santo, o mundo cessou de ser um carcere: elle é pelo contrario o senhor do mundo, porque é o seu supremo interprete. Só por elle é que o Universo sabe para que existe: só elle realiza o fim do Universo.

Estes pensamentos e muitos outros, mas concatenados systematicamente, formam o que eu chamarei, embora ambiciosamente, a minha philosophia. O meu amigo Oliveira Martins apresentou-me como um buddhista. Ha, com effeito, muita coisa commum entre as minhas doutrinas e o Buddhismo, mas creio que ha n'ellas mais alguma coisa do que isso. Parece-me que é esta a tendencia do espirito moderno que, dada a sua direcção e os seus pontos de partida, não pode sair do naturalismo, cada vez em maior estado de banca rota, senão por esta porta do psychodynamismo ou panpsychismo. Creio que é este o ponto nodal e o centro de attracção da grande nebulose do pensamento moderno, em via de condensação. Por toda a parte, mas sobretudo na Allemanha, encontram-se claros symptomas d'esta tendencia. O occidente produzirá pois, por seu turno, o seu Buddhismo, a sua doutrina mystica definitiva, mas com mais solidos alicerces e, por todos os lados, em melhores condições do que o Oriente.

Não sei se poderei realizar, como tenho desejo, a exposição dogmatica das minhas idéas philosophicas. Quizera concentrar n'essa obra suprema toda a actividade dos annos que me restam a viver. Desconfio, porém, que não o conseguirei; a doença que me ataca os centros nervosos, não me permitte esforço tão grande e tão aturado como fôra indispensavel para levar a cabo tão grande empreza. Morrerei, porém, com a satisfação de ter entrevisto a direcção definitiva do pensamento europeu, o Norte para onde se inclina a divina bussola do espirito humano. Morrerei tambem, depois de uma vida moralmente tão agitada e dolorosa, na placidez de pensamentos tão irmãos das mais intimas aspirações da alma humana e, como diziam os antigos, na paz do Senhor!—Assim o espero.

Os ultimos 21 Sonetos do meu livrinho dão um reflexo d'esta phase final do meu espirito e representam symbolica e sentimentalmente as minhas actuaes idéas sobre o mundo e a vida humana. É bem pouco para tão vasto assumpto, mas não estava na minha mão fazer mais, nem melhor. Fazer versos foi sempre em mim cousa perfeitamente involuntaria; pelo menos ganhei com isso fazel-os sempre perfeitamente sinceros. Estimo este livrinho dos Sonetos por acompanhar, como a notação de um diario intimo e sem mais preoccupações do que a exactidão das notas de um diario, as phases successivas da minha vida intellectual e sentimental. Elle fórma uma especie de autobiographia de um pensamento e como que as memorias de uma consciencia.

Se entrei em tão largos desenvolvimentos biographicos, foi por entender que, sem elles, se havia de perder a maior parte do interesse que a leitura dos meus Sonetos pode inspirar. Os criticos allemães acharão talvez interessante observar as reacções provocadas pela inoculação do Germanismo, no espirito não preparado de um meridional, descendente dos navegadores catholicos do seculo XVI. Poderá essa ser mais uma pagina, embora tenue, na historia do Germanismo na Europa, e porventura parecerá curiosa aos que se occupam de psychologia comparada dos povos.

Ao bom e amavel espirito que me introduz, a mim neophyto, n'esses grandes circulos do pensamento e do saber, tributo, além de muita sympathia, indelevel gratidão.

E sou de v. ex.^a com a maxima consideração

criado m.^o obrg.^o

Anthero de Quental.

A OBRA POETICA DE ANTHERO DE QUENTAL