Ignoto Deo.

Que beleza mortal se te assemelha,
Ó sonhada visão d'esta alma ardente!
Que refletes em mim teu brilho ingente,
Lá como em mar d'anil o sol se espelha?

O mundo é grande! e esta ancia me aconcelha
A buscarte na terra: e eu, pobre crente,
Vou pelo mundo a ver o Deus clemente
Mas a ára só lhe encontro… núa e velha.

Não é mortal o que eu em ti adoro.
Que és tu aqui? olhar de piadade,
Gota de mel em taça de venenos.

Ah lagrima das lagrimas que choro! Ah sonho dos meus sonhos! Se és verdade, Descobre-te, visão, no ceu ao menos!

II.

A M. C.

Não busco n'esta vida gloria ou fama:
Das turbas que me imporia o vão ruido?
Hoje deus, e amanhã já esquecido,
Como esquece o clarão de extinta chama!

Fóco, que a luz em torno não derrama,
Tal é essa ventura; éco perdido,
Quanto mais se chamou, mais escondido
Fugiu e se esqueceu de quem o chama.

Cada flor d'essa croa é um engano,
Como a nuvem das tardes ilusoria,
Como o misterio vão d'um vão arcano.