É o poeta que se interroga.
E o nú oculta-se, disfarça-se, foge, não se deixa apanhar; mas o olhar prescrutador segue-o por toda a parte, vai-lhe em cima a cada retirada, fita-o nos cantos mais obscuros, e não podendo segural-o, ao menos estuda-lhe as feições, toma-lhe os modos, aprende-lhe os geitos, escuta-lhe as falas e, juntando tudo isto, forma um todo, mais ou menos semelhante, mais ou menos disforme, mas, em todo o caso, retrato que vai pendurar na camara mais bela, mais escolhida da casa, como no melhor lugar do oratorio se guarda a reliquia mais sagrada.
Primeira transformação, pois, do sentimento. O poéta toma conhecimento do que lhe vae n'alma: estuda-se no intimo: tem consciencia dos fátos instintivos do espirito: e a inteligencia retrata, como póde, esse estranho que lhe entrou em casa, a quem quer por força conhecer.
A inteligencia forma idea do sentimento.
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Eis aí o nosso nú trazido á praça.
Desde que se apossou d'ele a inteligencia, não parece o mesmo: assaltam-no estranhas veleidades, caprixos desconhecidos. Ele o sismador, o solitario, recorda-se do vae soli e lembra-se de comunicar com o mundo, de se mostrar um pouco á luz do dia.
Caro lhe custa o: caprixo! Quanto não perdeu ele ja com passar de sentimento ao estado d'idea! Quanto não perderá agora passando d'idea a fáto!
O seu belo todo ja o vimos desfigurado no retrato que inabil fotógrapho lhe tirou: d'esse pouco, que lhe resta, lá vai ainda perder o melhor, la se vai envolver na forma, la vai cobrir-se com vestido… ele… o nú..
Por que é preciso vestil-o; e toda a questão está n'isto. Vestil-o! pois o que tinha ele de melhor senão a sua nudez, a liberdade de movimentos, tão indefinidos, tão vagos, tão belos?!..