Os Lusiadas são a epopea d'um povo; ser-lhe-hão tambem epitafio quando com a sua mão Deus lhe apagar o nome d'entre as nações. Mas qual ha poema de sofrimento que iguale este final do soneto CLXXVII.

Triste o que espera! triste o que confia!

Aonde ha epitafio, que melhor narre ás gerações a vida pelo amor d'aquela alma nobre, do que este (XIX):

Alma minha gentil que te partiste…

Os Lusiadas são a epopea do povo: mas a epopea do Poeta é aquele livrinho apenas lembrado dos Sonetos.

Um é o monumento da nação; outro o do homem: os Lusiadas escreveu-os o
Soldado; mas foi o poeta quem chorou os Sonetos.

Quem fala ai em colunas e estatuas? Camões não se vê, não se funde, não se palpa: sente-se! Que melhor retrato, que maior estatua quereis de que estes versos (CX):

E vou de dia em dia, d'ano em ano,
Após um não sei que, após um nada,
Que, quanto mais me chego, menos vejo.

Depois d'esta, que ele por suas mãos fundiu, ninguem lhe vá tirar as feições!

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