O chefe musulmano deu ao rei christão desthronado a hospitalidade proverbial dos arabes, de que a historia da peninsula hespanhola offerece repetidos exemplos. Affonso ficou em Toledo até o anno de 1072 em que Sancho rei de Castella foi morto com uma lançada por Bellido Arnulfes diante dos muros de Samora.
Altos juizos de Deus! O prisioneiro de Sancho de Castella, o clausurado de Sahagun, o principe desthronado e fugitivo, e o hospede tranquillo dos adversarios mais encarniçados da sua raça, estava destinado para ser um dos mais poderosos soberanos do seu tempo. Tambem na nossa idade o prisioneiro de Strasburgo e de Bolonha, o encarcerado de Ham, o principe desherdado e fugitivo, e o hospede paciente dos inglezes, não parecia fadado para governar uma das maiores nações da terra, e para vencer a aguia russa na Crimêa, e a austriaca em Solferino; Napoleão III e Affonso VI podem comparar-se n'este ponto, apesar dos oito seculos que os separam.
Affonso VI saíu de Toledo para voltar ao governo dos seus estados e para reunir sob o seu dominio a Castella, Leão, as Asturias, a Rioja e a Biscaia. A Galliza, descontente de Garcia, contra quem já se tinham revoltado os de Entre Douro e Minho, não se oppoz á prisão do seu soberano, e deixou-se encorporar na grande monarchia de Fernando Magno, reconstituida agora por seu filho Affonso. Garcia morreu na prisão.
Dizem de D. Affonso VI que depois de sair de Toledo para tornar a reinar, o obrigára o Cid a jurar que não fôra cumplice de Bellido Arnulfes na morte de D. Sancho. Deus sabe se o bom do Cid teve tal escrupulo.
No fim de tudo taes patranhas se contam do Cid que nem a gente sabe o que ha de acreditar! É certo porém que D. Garcia perdeu a corôa da Galliza mas foi bem tratado na prisão onde ficou até morrer apesar de ser irmão do rei. Rasões de estado! D'estas já por cá se viram!
Se os principes christãos andavam sempre em guerra, que por muitas rasões se poderia chamar guerra civil, os arabes não viviam entre si em união mais intima. A queda dos Beni-Umeyas foi seguida de graves dissensões ao cabo das quaes a cidade de Toledo veiu em 1085 a caír nas mãos de Affonso VI, cêrca de quatro seculos depois d'aquelle dia em que Rodrigo, o ultimo rei dos wisigodos, saíra dos muros da capital para ir acabar os seus dias na batalha do Chrissus.
Affonso VI soube sacrificar os designios ambiciosos de soberano visinho, e de guerreiro christão, aos deveres da amisade agradecida. Nas guerras entre o emir de Toledo e o de Sevilha, Al-Mamum teve sempre por alliado a Affonso VI seu antigo hospede, e só depois da morte do generoso arabe, e da expulsão de seu filho, é que o estandarte christão tremulou na velha capital da monarchia wisigothica.
A posse de Toledo, e as victorias successivas de Affonso VI, atemorisaram Ibn-Abed, emir de Sevilha, e inspiraram-lhe a idéa de chamar de Africa os almoravides commandados por Abu-Yacub. Foram elles que no dia 23 de outubro de 1086 destroçaram na batalha de Zalaka junto a Badajoz os esquadrões do rei de Leão e de Castella.
Dezesete annos depois, o emir el-moslemym Iussuf era já senhor de todo o territorio desde Saragoça até á margem esquerda do Tejo, e Affonso VI, apesar do titulo pomposo de imperador, que a vasta área dos seus estados lhe grangeára, apenas tinha alcançado algumas victorias na parte occidental da peninsula hespanhola. Santarem, Lisboa e Cintra tinham sido tomadas por elle em 1093, e o governo d'esse novo territorio confiado a Sueiro Mendes irmão do lidador.
O imperador era então um dos mais poderosos principes da christandade. Dos outros soberanos da Europa pouco tinha que receiar. Na peninsula porém não podia ter descanso, emquanto os arabes conservassem n'ella um imperio, grande pela extensão de terreno, vigoroso pelo valor dos musulmanos, forte pela facilidade de receber soccorros enviados de Africa, tranquillo pela moderação e brandura do governo, e não menos importante pela cultura das sciencias, das letras e das artes, e pelo desenvolvimento da agricultura, da industria e do commercio.