O tratado entre os dois primos não teve execução. Urraca, viuva de Raymundo, succedeu, segundo o testamento de Affonso VI, na corôa de Leão e de Castella, e deixando em Galliza seu filho D. Affonso entregue á tutela dos condes de Trava, casou em segundas nupcias com Affonso I rei de Aragão.
Este segundo casamento foi celebrado mais a exigencias dos barões castelhanos e leonezes, do que por vontade de D. Urraca. Queriam um homem para commanda-los, e que fosse pelo seu esforço e valentia digno de tal encargo. Affonso de Aragão era já então nomeado como batalhador. Por essa qualidade o escolheram.
Mas a pobre rainha não pôde accommodar-se ao caracter aspero e violento do aragonez, D'ahi provieram muitas occasiões de guerra e de desordem e d'ahi tambem começou a surgir a possibilidade de Portugal vir a ser um estado independente, e separado para sempre da corôa leoneza.
Entretanto o conde Henrique não estava ocioso. Apenas soube da morte do sogro com quem já andava mal avindo, partiu para França a reunir ali os meios necessarios para se apoderar dos estados de Affonso VI, ou para colher o maior proveito possivel das alterações e dificuldades, que necessariamente deviam seguir a morte do imperador.
Esta viagem não teve bom exito. D. Henrique foi preso em França por motivos que a historia se esqueceu de registrar, fugiu da prisão, e recolheu a Portugal pelo Aragão cujo rei já separado de D. Urraca se alliou facilmente com elle.
Desde o seu regresso de França, que foi em 1111, o conde Henrique mudou de politica, provavelmente porque a falta do auxilio esperado lhe impunha a obrigação de ser mais circumspecto, e de certo tambem porque a morte de Raymundo, e o casamento de D. Urraca tinham dado aos negocios da peninsula uma direcção muito differente.
A rainha D. Urraca pouco depois de casada, separou-se do segundo marido Affonso[NT] rei de Aragão, e passou o resto de seus dias em reconciliações e separações successivas, sempre precedidas, acompanhadas e seguidas dos disturbios e agitações que resultam das discordias internas das familias soberanas, a cujo exemplo se compõem os costumes dos povos.
Esta situação das monarchias leoneza, castelhana e aragoneza, que o casamento de D. Urraca e de D. Affonso tinha unido, e que o caracter dos dois conjuges separava a cada instante, aggravava-se com desintelligencias repetidas entre Castella e Galliza. Os fidalgos gallegos, sob a direcção do conde de Trava, tutor do joven filho de Raymundo, complicaram frequentes vezes as difficuldades da corôa de Leão e Castella, querendo realisar a separação decretada no testamento do imperador em proveito do principe Affonso Raymundes.
D. Henrique soube valer-se habilmente das desavenças alheias, alliando-se ora com D. Urraca, ora com D. Affonso de Aragão, e mesmo com os magnates de Galliza. Desinteressado dessas questões, o seu principal fim era prolonga-las, collocando-se do lado de quem menos probabilidades tinha de resistir ao poder do outro. Assim, o vencedor de hoje podia facilmente ser o vencido de ámanhã, e nenhum dos belligerantes ficaria nunca tão poderoso, que se lembrasse de attentar contra a soberania de Henrique.
Entretanto brotavam e florescíam na terra portucalense os elementos de independencia, que mais tarde deviam produzir a formação da nacionalidade portugueza. A cada guerra civil a alliança de Henrique era solicitada com empenho e ninguem ousava regatear-lhe as concessões, ou pôr cobro ás demasias do seu poder. A sua supremacia era incontestavel, reconheciam agora uns, logo outros, e a final todos.