N'aquellas epochas de preponderancia feudal e militar, a politica sagaz de D. Henrique não dependia só da sua ambição e do seu espirito elevado. Era indispensavel que os cavalleiros portuguezes seguissem de boa vontade as modificações da politica do conde borgonhez e de D. Tareja, e que sacrificassem a um principio geral as affeições e os interesses que podessem liga-los a D. Urraca, a D. Affonso, ou aos fidalgos gallegos.
Essa necessidade reconhecida por todos dominava o animo dos portuguezes. Unia-os o desejo da propria independencia, sentimento especial da nossa raça, que o decurso de tantos seculos ainda não pôde destruir, nem a unidade da civilisação moderna conseguiu modificar. Os portuguezes do começo do seculo XII seguiram o conde Henrique em todas as suas mudanças politicas e diplomaticas com tal confiança e tenacidade, que ambas se podem enumerar entre as causas mais energicas da independencia de Portugal.
Sem esta união intima entre o chefe do estado e os seus magnates, a gente portugueza ter-se-ía dividido nos differentes bandos em que frequentemente se separava a familia hespanhola, e d'essa divisão resultaria o enfraquecimento do poder material e da força moral de D. Henrique, bem como a impossibilidade de resistir aos esforços do monarcha de Leão, quando este principe tentasse encorporar de novo nos seus dominios a terra portugueza.
O desejo de possuir a maior porção possivel dos estados de Affonso VI prevalecia sobre qualquer outro pensamento no animo do conde de Portugal. Por isso talvez não acudiu a Santarem e ás outras terras do sul, que os arabes tomaram de novo, e apenas pôde empregar-se em socegar os habitantes de Coimbra, que irritados pelo procedimento de Munio Barroso e de Ebraldo chegaram a recusar a D. Henrique a entrada na cidade.
O conde andava então inteiramente entregue á idéa de se aproveitar das dissensões entre sua cunhada D. Urraca e Affonso[NT] I de Aragão, servindo-se para esse fim de allianças contraídas e desfeitas segundo a malicia dos seus intuitos lhe aconselhava.
O conde D. Henrique morreu em Astorga no 1.o de maio de 1114, transformado já de simples governador do districto de Braga em soberano quasi independente. Não era rei, posto que D. Tareja usasse ás vezes o titulo de rainha, não era principe, nem infante, mas desde a morte do sogro, era senhor na rigorosa accepção da palavra quanto ao facto, embora o direito publico da epocha o sujeitasse ao rei de Leão.
Os portuguezes devem venerar a memoria do principe borgonhez, porque desde a sua volta do Oriente não teve em vista senão a independencia d'esta terra e soube empregar em tão nobre empenho grande sagacidade, invencivel firmeza, e consummada prudencia.
Quando os restos mortaes do conde D. Henrique entraram na sé de Braga a repousar no tumulo onde inda jazem, as bases da independencia portugueza estavam lançadas, e por mão de mestre.
Este foi o verdadeiro fundador da nossa nacionalidade. Os portuguezes chamados a intervir nas guerras civis de Hespanha ora a favor de D. Affonso, ora a favor de D. Urraca, ora a favor do principe de Galliza foram-se separando insensivelmente de cada uma d'essas parcialidades, e adquirindo as qualidades de povo independente.
A monarchia appareceu mais tarde. Era a consequencia necessaria da existencia da nação, e dos costumes e tradições d'aquelle tempo.