Eis a largos traços esboçada a historia d’esta idéa. É curta pelo espaço de tempo que abrange, mas importantissima pela natureza dos factos a que se refere. No momento actual, relançando os olhos pelas nações mais cultas de todo o mundo, vemos que o principio da representação proporcional domina os espiritos mais devotados aos grandes interesses da democracia. Chegou ao periodo da sua maturidade esta idéa. Podem os partidos insensatamente conservadores oppôr difficuldades á sua realisação prática, illudindo a consciencia publica com adiamentos e opportunismos; mas não podem mais nada. Os partidos mais adiantados honram-se de inscrever nos seus programmas o principio da reforma eleitoral; em toda a parte surgem associações expressamente organisadas para a melhor, para a mais forte propaganda d’essa idéa.

E. Naville cita estas sete associações, notaveis e benemeritas pelos esforços empregados em favor d’esta causa: a de Genebra (1865), a de New-York (1867), a de Zurich (1868), a de Londres (1869), a de Chicago (1869), a de Neuchâtel (1869), a de Roma (1871). Não sabemos de mais, mas é crivel que outras se tenham formado desde 1873, de que é datado o documento a que nos soccorremos n’esta parte do nosso trabalho. Dos trabalhos de E. Naville, classicos n’esta materia, o ultimo, que conhecemos, é d’aquelle anno[90].

Este veneravel publicista, terminando a sua Memoria, dirigida ao jornal de Genebra, diz estas eloquentes palavras: «Temos visto com a maior commoção a nossa causa crear para si centros de actividade em Athenas e em Roma. Dos tres velhos fócos da civilisação do mundo, falta apenas Jerusalem; mas o espirito vindo de Jerusalem não é estranho á obra proseguida pelos que vêem, na introducção d’um novo elemento de justiça, a base da ordem publica, e, na suppressão de luctas, que não teem razão de ser e desenvolvem sempre paixões hostís, uma applicação directa dos principios da civilisação christã.»

Quando uma expansão d’esta ordem é precedida de 12 annos de trabalho indefesso; quando, pela palavra e pela penna, isoladamente e por meio de associações, se tem feito, d’um pensamento desinteressado e nobilissimo, o destino d’uma grande parte da vida; quando a causa que se ha servido tão bem e por tanto tempo, tem um grande cunho social e humanitario; quando se dá isto, palavras como aquellas são a maior gloria d’um nome, e traduzem a maior felicidade que a consciencia humana póde alcançar.

Michelet disse cousa como aquillo ao terminar a sua Historia da França: despediu-se d’ella com saudade o operario infatigavel, o espirito amantissimo dos homens e das cousas. E. Naville, ainda em pleno combate, arranca do coração aquella phrase feita de bondade e de luz. Quem tem alma para sentir aquillo, está pago de todos os sacrificios por mais custosos que sejam, porque nada ha comparavel aos intimos gosos d’uma consciencia em plena certeza de haver feito o bem!

NOTAS DE RODAPÉ:

[70] Le gouvernement représentatif, pag. 152.

[71] Diario da Camara dos srs. Deputados, sessão de 19 de março de 1878, pag. 697.

[72] Réforme électorale de la représentation des minorités, pag. VII.

[73] De la réforme et de l’organisation normale du suffrage universel, pag. 53.