POEMA DE COSTUMES NACIONAES

RIO DE JANEIRO
TYP. DA GAZETA DE NOTICIAS
72 RUA SETE DE SETEMBRO 72

1879

AO MEU LIVRO

Vae, filho, já tens idade,
já ficaste emancipado;
precisas correr o mundo,
saber de tudo um bocado.
Vae, filho, mas sê prudente,
ouve os conselhos de gente
que puder te aconselhar;
sê modesto e delicado...
em fallar pouco e acertado
ha sempre muito a ganhar.[6]

Se alguma gloria colheres,
não te ufanes sem razão:
ás vezes ouve-se um tolo
por méra contemplação.
Escuta os indifferentes.
Os amigos e os parentes
não dizem toda a verdade.
Agora, no teu caminho,
não te basta o meu carinho
nem toda a minha amizade.

Se ouvires phrases sensatas,
presta-lhes toda a attenção;
a tolos não dês ouvidos
nem provoques discussão.
Respeita as crenças alheias;
mas guarda as tuas idéas
e corrige os teus defeitos.
Na escola da sociedade,
estuda, aprende a verdade
nas phrases de seus eleitos.

Vae, filho, Deus te acompanhe.
Das letras no vasto mundo
bem poucos bóiam á tôna,
grande parte vai ao fundo.[7]
Ai! neste momento extremo
é por ti, filho, que eu tremo!
attende aos conselhos meus...
Já são horas da partida;
comtigo vae minha vida,
mas parte... vae... filho, adeus.[8]
[9]

CANTO PRIMEIRO

[10]
[11]

I

Ha quem diga que a franceza
é a mulher por excellencia;
mil outros dão preferencia
aos requebros da hespanhola:
dizem que ella prende e mata
quando a melena desata
e no fandango arrebata
ao trinar da castanhola.

As bellas filhas da Italia
tem milhões de adoradores,
lá na patria dos amores
quem dá leis é o coração.
É tudo vida, alegria,
feixes de luz, de harmonia,
ondula em torno a poesia
nesse mar da inspiração.[12]

Eu acho a todas bonitas
quando de veras o são,
quer sejam do Indostão,
d'Allemanha, Italia ou França;
mas p'ra mim a brazileira
d'entre todas é a primeira:
é gentil, é feiticeira
como um sorrir de creança.

As outras guardam comsigo
da velha Europa a imponencia;
estas não, tem a innocencia,
tem o perfume das flôres;
captivam pelos encantos
ingenuos puros e santos,
e são, meu Deus, taes e tantos,
que fazem morrer de amores!

Quem póde escutar-lhe as fallas
quando a tremer de receio,
baixando os olhos no enleio
em que a prende o coração,
ella diz corando e rindo:
«Do meu ceu de amor inflado,
tu és o astro mais lindo
da maior constellação!»?[13]

Quem póde conter no peito
o travesso coração?
quem não sujeita a razão
ao dominio dessas fallas?
quem não se abraza nos lumes
da mulher que tem perfumes,
de que as rosas tem ciumes
se vão se encontrar nas salas?
..............................

II

Meu leitor, deixa a cidade e vem comigo
que eu quero te mostrar um quadro bello;
vem á roça onde o amor é mais sublime,
e tudo quanto é grande mais singelo.

Eu prefiro ás harmonias de uma orchestra,
aos encantos que doudejam nos salões,
a cantiga do tropeiro descuidoso,
ou as trovas amorosas dos sertões.

Ha naquelles improvisos mal rimados,
e naquella inspiração de cada instante,
a belleza original que parte d'alma
sem arte, mas com fogo delirante.
.................................[14]

III

Elle era um moço bonito
como na côrte não ha,
tinha os olhos e os cabellos
da côr do jacarandá.
Um porte airoso, engraçado,
rapagão desempenado
de metter inveja a cem!
se na estrada elle passava,
a moça que o espiava
lhe ficava querendo bem.

Mas elle guardava firme
no fundo do coração
pela bella Margarida
a mais ardente paixão.
E as moças da visinhança
ao verem sua esquivança
ás festas, se ella não ia,
diziam de enciumadas:
«—Pedro está de azas quebradas;
pobre moço! quem diria?!

«—E tem só vinte e tres annos
e alguma cousa de seu!
vejam só o que é fortuna;
tão feliz nunca fui eu!
—E dizem que casa breve?[15]
—Eu não sei, mas elle deve
casar-se p'ra o fim do anno.
—Que lhe faça bom proveito...
—E o velho está satisfeito?
—Pudera não! bem ufano!»

Tal eram os commentarios
que em toda a parte faziam
as moças da visinhança,
que em festas se reuniam;
mas elle, surdo aos rumores
que faziam seus amores
nas discussões femenis,
nada via além do encanto
d'aquelle amor puro e santo,
d'aquelles olhos gentis.

Mas quem era a linda moça
a quem Pedro tanto amava?
quem era a virgem formosa
que elle assim idolatrava?
era rica ou pobresinha?
tinha-lhe amor ou não tinha?
Não é o que queres saber?
lá vamos, leitor querido,
satisfazer teu pedido,
já tudo vamos dizer.[16]

IV

Ella tinha quinze annos; era um anjo
de graça, candidez e de bondade,
e aquelle coração de meiga pomba
amava como se ama nessa idade.

A todos occultava aquelle affecto
que su'alma marchetava de illusões;
dos sonhos côr de rosa que ella tinha
quem pode descrever as emoções?

De manhã apoz a prece fervorosa,
fictados nos do Christo os olhos bellos,
regava o seu canteiro, e de violetas
um raminho prendia entre os cabellos.

«Tomava o seu balaio de costura,
tirava linha, agulhas e dedal,
e sentava-se a coser o dia inteiro
á sombra da mangueira do quintal.

Ás vezes descuidando seu trabalho,
parada co'o olhar ficto na estrada,
no mar da phantasia, como um cysne,
boiava da corrente á flôr levada.[17]

V

Tal era a mimosa filha
do velho Simão da Cruz;
de sua velhice o arrimo,
alegria, vida e luz.
Revia no rosto della
a companheira extremosa,
que lhe deixara, murchando,
o rebentão de outra rosa.

Vio-a crescer sob os olhos;
estudou-lhe o coração,
e lia nelle os mysterios
d'aquella ardente paixão.
Um dia toma-lhe o braço,
fal-a sentar a seu lado,
e diz-lhe rindo o bom velho:
«Já tens algum namorado?»

Enrubece, treme, ensaia
dizer uma phrase, em vão!
repete o velho a pergunta,
e ella responde «—Não...
—Não mintas, filha! não sabes
que é um peccado mentir?
—Perdão meu pai!—Não perdôo
a quem me busca illudir.»[18]

Dos bellos olhos da moça
o pranto desce a torrentes,
cujas bagas vão no seio
embeber-se encandescentes.
O velho, ameigando a falla,
apoz miral-a um instante,
lhe torna: «—Vamos! não chores!
não é Pedro o teu amante?

«Bom rapaz! é de meu gosto...
já fallou-te em casamento?
e tu disseste que sim,
sem o meu consentimento?!
Como os filhos são ingratos!
este mundo como vae!
quem de uma filha os segredos
guardará melhor que um pai?

«Mas vamos lá! estou por tudo;
disseste que sim? está dito!...
fizeste mal em negal-o;
isto assim não é bonito.
Não chores, dá-me um abraço!
será Pedro o teu marido;
é justo, se o amas tanto...
se foi o teu preferido...[19]

VI

Estamos em junho, no mez das fogueiras,
do riso, das festas, das sortes, do amor,
das cannas assadas, carás e batatas,
dos jogos de prendas, do fogo em redor.

Quem póde na roça ficar, preguiçoso,
dormindo na rêde, sem ir ao pagode?
se as moças bonitas lá estão feiticeiras
cantando e sorrindo, fugir-lhes quem póde?

VII

Na fazenda do Tymbira
era velha a devoção
de fazer-se grande festa
em dias de S. João.
O velho Joaquim Medeiros,
que era a flôr dos fazendeiros
d'aquella localidade,
esfregava as mãos contente
quando via em casa gente
a que o prendia a amizade.

D. Olympia, sua esposa;
mãi dos pobres do logar,
tres dias antes da festa
não parava a trabalhar.[20]
Mandava as suas mucamas
dos quartos fazer as camas,
espanar tudo e varrer,
e, doceira de bom gosto,
lá estava firme no posto,
fazendo o tacho ferver.

Fazia doce de côco,
laranja, cidra, limão,
bom-bocado, arroz de leite,
bolinhos de S. João,
pamonha, cus-cus de milho,
manouê, biju, sequilho,
biscoutinhos de araruta,
tarécos, baba-de-moça,
e, mil doces que na roça
se fazem de toda a fructa.

No terreiro da fazenda
preparava-se a fogueira,
e o mastro todo enfeitado
de folhagens de mangueira;
e dentre as folhas escuras
sahiam fructas maduras,
como é o costume geral,
e uma boneca vistosa
de vestido côr de rosa,
fazia o tópe final.[21]

No campo desde a porteira
de verde murta vestida,
duas linhas de coqueiros
vem a porta da saida.
De um lado a outro correndo,
dirigindo ou desfazendo
o que não estava direito,
andava o rei dos festeiros
o nosso velho Medeiros
sempre alegre e satisfeito.

«—Vamos com isso, rapazes,
que temos mais que fazer
e d'aqui por uma hora
ninguem se póde mecher.
Joaquina e Manuela,
vocês vão lá p'ra capella
capinar ali na frente.
Olá, moleque, ó vadio!
chega ali embaixo no rio,
vê se vem alguma gente.

«Vicente, traze as bandeiras,
vai tu com elle, Francisco;
Manuel, varre p'ra um canto
e apanha depois o cisco.
Não quero ver uma palha!...
veja depois como espalha[22]
essas folhas de mangueira!...
Ó Job, pergunta á sinhá
se já tem café por lá,
que mande aqui na porteira.»

VIII

Se eu soubesse descriptiva
dava aqui em perspectiva
a fazenda toda inteira!
tomava tinta e pincel
e sobre plano-painel
transportava... mas é asneira...

Eu não pesco nem pitada
dessa insulsa trapalhada,
de linhas, pontos e traços;
mas tambem não me entristeço,
é sciencia que aborreço,
cansa a cabeça e os braços.

E na falta de sciencia,
eu peço condescendencia
p'ra o traçado que vou dar;
é obra de um curioso...
meu leitor, sei que és bondoso,
não o queiras censurar.[23]

IX

O todo se emmuldura em matto virgem;
arbustos mil em flôr dão-lhe a fragancia,
e o fundo do painel é verde-escuro
da côr de um cafesal visto á distancia.

Por entre as pedras soltas de seu leito,
o rio serpenteia murmurando.
De um lado a horta, o engenho, alguns pomares,
do outro, os animaes que estão pastando.

Aqui o mandiocal n'um morro enorme,
naquelles á direita, é o cafesal;
ha uma socca de arroz junto do brejo
e da cerca p'ra lá, o cannavial.

No centro, n'uma dobra do terreno,
a casa que é voltada p'ra o nascente;
precede-lhe o jardim, primor de gosto
que a abraça pela esquerda e pela frente.

Ao fundo em duas ruas parallelas
a casa da farinha, a do feitor,
paióes, estrebarias e senzallas,
o tanque, o gallinheiro, e corador.[24]

Olhando p'ra direita vê-se a escada
que tem de cada lado uma mangueira,
o campo e o caminho em linha recta,
que da casa vae parar junto á porteira.

Concebe o quadro lá como puderes!
eu dou-te aqui apenas um bosquejo,
querel-o completar fôra loucura,
se bem que fosse grande o meu desejo.

Lá chega o rancho enorme e folgasão
que vem p'ra festejar o S. João.

De quatro leguas em roda,
toda aquella visinhança
veio assistir á festança
da noite de S. João.
O povo da freguezia
quazi todo nesse dia,
ia como em romaria
pandegar por devoção.

Como é uso admittido,
a pessôa convidada
leva roupa preparada
para quatro ou cinco dias!...[25]
lá na roça a moda é esta;
qualquer pagode, não presta
sem a semana de festa,
de intermináveis folias!

Subindo e descendo morros,
n'um carro por bois puchado,
n'um tunel improvisado
de arcos e de uma esteira,
de uma fazenda visinha
a passo lento caminha
a familia que se aninha
n'essa amavel capoeira.

Atraz os negros da casa
Tão carregando os bahus,
sem camisa, quazi nús,
e alagados de suor;
ao lado caminha a passo,
n'um lindo macho picaço,
o fazendeiro ricaço
que vae morto de calor.

Os filhos vão a cavallo.
Na frente caminha o pagem,
que sem esse personagem
na roça não se é ninguem![26]
É um negro de confiança
em quem o Senhor descança,
que exerce desde criança
o cargo honroso que tem.

Usa jaqueta de vivos,
chapeo baixo de oleado,
topete bem penteado,
canos de bota e chilenas;
é o mensageiro de amores
dos filhos de seus senhores;
leva cartinhas e flôres
para entregar ás pequenas.

O pagem da roça é um typo
de serio e acurado estudo,
sabe um bocado de tudo
quanto se deve saber.
É ferrador, é selleiro,
carapina e corrieiro,
é peão e no terreiro
requebra um fado a valer.

Aqui um rancho de moças
vae a pé, moram tão perto!...
são duas leguas, é certo,
mas diz-se na roça:—é ali.[27]
E por toda aquella estrada
vê-se gente a pé, montada,
e outra que já cançada
bebe á sombra paraty.
...................................
...................................
...................................

X

Terminou-se o jantar, é noite escura;
com fachos de sapé ligeiros correm
os moços dando vivas.
Accende-se a fogueira e em torno a ella
vão sentar-se alegres, descuidosos,
os grupos de convivas.

Aqui tomam garapa em lisas cuias,
os velhos, que disputam seriamente
ácerca de eleições,
ou fallam do café que está sem preço,
nos gastos da lavoura e poucos lucros
de suas transacções.
Ali as moças todas reunidas
dissertam sobre amor e namorados
com tal proficiencia,[28]
como um lente, jubilado na materia,
derramando em qualquer academia
a luz da experiencia.

Não longe os rapazes formam grupos:
uns são republicanos exaltados
e outros monarchistas;
e outros sem partido, olhando as moças,
a morrer de amor por ellas, contam rindo
amores e conquistas.

É tudo animação, prazer e vida...
aqui um bello dito, ali vozes confusas,
gostosas gargalhadas;
estouram buscapées, rebentam bombas,
foguetes e balões erguem-se aos ares
no meio de apupadas.

XI

«—Qual, compadre, desta feita
parece que os liberaes
não sobem, não, mas é o mesmo...
que me diz, Sr. Moraes?

«—Eu não sei, mas desconfio
que os homens não fazem nada;
pelo menos lá na villa
é tudo chapa cerrada.[29]

«—Aposto cem contra dez,
com quem quizer apostar,
em como os conservadores
hão de ceder o logar.

«E o Brazil vae á garra
se os liberaes não subirem;
que projectos, quanta cousa
se perde, se elles cahirem!

«Estradas e mais estradas,
navegação pelos rios;
hão de fazer o diabo
porque empenharam seos brios.

«—Ora adeus, em quanto a brios
os outros tambem os tem;
e ninguem lhes passa a perna,
porque fallam muito bem.

XII

«Ó Gringo, salta a fogueira!
ó Guillon, pula tambem!
assim, Norberto! um, dois, trez...
sim, senhor, foi muito bem![30]

«Seu Zé Carlos, largue a moça!
não seja namorador!
já temos nova conquista?
vem p'ra aqui, ó seductor.

«O Octávio lá está n'um canto
a scismar encalistrado!
que tem elle?—Ora o que tem!
anda muito apaixonado:

«Dizem que elle foi a um samba
e de lá veio cahido...
mas espera, olha o Zamith
como está todo lambido!

«E o Licurgo? oh que maroto!
desde que elle se casou
está com ar de homem serio,
ficou bonito, engordou!...

«Tira os carás do rescaldo,
moleque, traz o melado!
oh ladrão, anda ligeiro...
este sim, está bem assado[31]

«É só da tropa fandanga!
ninguem mais aqui se metta!
Ezequiel, tu não comes?
estás forjando alguma pêta?

XIII

«—Pois creia, sinhá Chica, foi olhado
botado na pequena com certeza;
Candóca esteve assim, mas foi resal-a
a sogra do Manduca, a nhã Thereza.

«Foi lá trez sextas-feiras, em seguida
benzeu e deu-lhe uns póses p'ra tomar;
e hoje, benza-a Deus, está que é um gosto!
só vendo é que se pode acreditar!

«—Pois olhe, p'ra fallar minha verdade,
já tinha me alembrado ser feitiço...
não podia senão ser cousa feita..
pelos modos que é, só se foi isso.

«A menina tem uns flatos pelas costas,
e anda jururú que mette pena!
coitada! tem tomado mil mesinhas
e nada de arribar; pobre pequena![32]

«—Quem sabe, diz a tia Marcolina,
que entende destas cousas como gente,
quem sabe se a espinhela tem caida?!
se for isso, ponho-a boa de repente.

«A lua agora é nova... pouco importa,
na sexta-feira cedo mande-a lá,
que com favor de Deus tenho esperança
que volta sã e salva para cá.»

XIV

Eu não sei porque é que em toda a festa
se encontra sempre um bôbo, um toleirão,
dizendo muita asneira e se inculcando
rapaz de muita graça e sabichão!

Á festa de Medeiros foi um typo,
a quem debalde eu busco descrever;
deixára a côrte onde era um petit-maitre
e á roça foi levar todo o saber.

Fallava sempre em termos empollados,
mirava-se ao espelho a cada instante;
usava citações em qualquer lingua,
e tinha o ar altivo do pedante.[33]

Frisada a cabelleira e com pastinhas...
gravata verde-mar, o fraque azul,
as luvas côr de cinza, a calça branca,
sapatos de verniz; eis meu taful.

Desceu para o terreiro, olhou em torno
buscando achar um pobre a quem massar,
e eil-o dentro em breve n'uma roda,
com todo o seu furor a disputar.

«—Perdão, dizia o typo enthusiasmado:
eu sou republicano, e como tal
exijo a liberdade a mais completa,
quer na ordem civil, quer na moral.

«A lei é um empecilho á liberdade,
o que a dicta ou a impõe é um vil tyranno
os povos não precisam de governo,
o exemplo está no povo americano!

«To be or not to be, eis como eu penso;
abaixo a realeza e o seu prestigio;
o rei a quem o mundo hoje se curva
escreve—Liberdade—em gorro phrigio!»[34]

Fallou e disse asneiras muito tempo
até que ficou só, sem mais ninguem!
«—Camellos! disse elle em tom baixinho,
nem sabem de que ponto a luz lhes vem!»

Mas vendo ao longe a bella Margarida,
exclama o nosso heróe: «—Oh! c'est charmant!
Mignone, vaes ser minha, assim t'o juro...
e agora ella está só! c'est bien l'instant.

E assim dizendo applica o pince-nez
e vae sentar-se ao lado da menina.

XV

«Desculpe vossa excellencia,
mas eu creio que já a vi!
—Póde ser, responde a moça,
quasi sempre eu venho aqui...»
«—Não foi aqui, foi ha um anno...
na côrte, se não me engano,
n'um baile que eu a encontrei...
—Oh! gentes! está enganado,
se perguntar p'ra que lado
a côrte fica, não sei!»[35]

«—Era então o seu retrato
divinamente imitado...
os mesmos olhos divinos!
o mesmo rosto adorado!...
«—Oh! senhor, parece incrivel!
deveras será possivel
tão pasmosa semelhança?!
—Oh! natura eterna e infinda!
nunca vi mulher tão linda!...
—Eu sou linda? que esperança!

«—Então não vio Guanabara
da metrop'le no regaço,
sonhando loucos edyllios
co'os olhos fitos no espaço?!
«—Não senhor! se eu não conheço!»
«—Escuta, diva, eu te peço:
sou talvez um sonhador...
—Oh! moço, mal comparando,
quando o senhor está fallando
parece-me um pregador!»

«—Serei tudo, ó casta diva,
innocente Julieta!
tu'alma exhala o perfume
da modesta violeta!...
! que moço engraçado!
já deu-me o nome trocado...[36]
eu me chamo Margarida.
—Margarida? Oh! doce encanto!
teu nome tão puro e santo
guardarei além da vida!

«Escuta, sylpho do empirio,
dos céus aerea visão,
não sentes do amor as lavas
que arroja o meu coração?
partamos, além na selva
sobre um tapete de relva,
pousemos o floreo ninho!
partamos, a noite é densa...
—Ó moço, eu peço licença,
eu vou fallar com dindinho!

«—Comment celà! não me deixes
com tua ausencia obumbrado!
queres tu que um cenotaphio
erga a um amor desgraçado?
—Oh! seu aquelle, me deixa!
senão eu vou fazer queixa
a meu pai, largue meu braço!..
—Não partas, anjo bemdito...
—Eu sou grossa p'ra palito...
—Ao menos dá-me um abraço!...»[37]

XVI

Tal como ao terminar-se da espoleta
o mixto que de um jacto a carga inflamma,
e no rouco troar detona a bomba
cuspindo os estilhaços, fumo e chamma,

assim do meu leão, na face núa,
por mão callosa e firme manejada,
a bomba do ciume arrebentara
e com ella uma tremenda bofetada!

Zumbiram-lhe aos ouvidos mil besouros,
myriades de estrellas viu então;
sahiram-lhe faiscas pelos olhos,
perdera o equilibrio, e... foi ao chão!

De pé, em frente a elle estava um homem,
raivoso como tigre olhando a preza;
nos olhos faiscava-lhe o ciume,
nos labios um sorrir de atroz dureza!

É Pedro, que no seu amor selvagem
não póde reflectir, sabe vingar;
feriam-lhe de morte as crenças d'alma,
e o tigre que é ferido quer matar.[38]

XVII

«—Pedro! Pedro! então que é isto?!
valha-me Nossa Senhora!
—Margarida, vae-te embora,
tu não me queiras perder!
—Pelo que tens mais sagrado,
deixa esse moço, coitado!
que mais lhe queres fazer?!...

«—Quero mostrar a um patife
como se falla a uma moça;
elles pensam que na roça
é como lá na cidade?!
«Estão enganados comigo!...»
E com o joelho no umbigo
dava-lhe sôcco á vontade!

«—Soccorro! gritava a moça
quazi louca de terror;
meu pai, accuda o senhor,
porque elles se vão matar!...
meu Pedro, não sejas louco,
olha, escuta, espera um pouco;
meu Deus! quem ha-de apartar?[39]

«—Sahe-te d'aqui co'os diabos!
não me atormente a cabeça,
puche já, não me aborreça...
você pensa que me embaça?
É tambem teu namorado?
ha de amargar um bocado,
hei de tirar-lhe a fumaça...

«—Repare que é minha filha;
escutou, seu malcriado?
sou velho, estou alquebrado,
mas ninguem me offende em vão!
sei tolerar n'essa idade
loucuras da mocidade;
mas insultal-a, isso não!

«Margarida é muito honesta!
não é lá quem você pensa!...
acho bom que se convença
que ella tem alguem por si!
Vem-te embora, minha filha,
o homem, que assim te humilha,
é mais que indigno de ti.»[40]

XVIII

Chegara emfim Medeiros e á contenda,
poz termo com palavras convincentes;
do chão suspende o pobre Lovelace,
separa os dois mancebos imprudentes.

—Levando pelo braço o seu Juquinha,
com elle vae p'r'a sala de jantar
e póde ver á luz, banhado em sangue,
o triste petit-maitre a soluçar!

O rosto lhe lavaram com cachaça,
ficando para todos bem patente,
que os beiços, o nariz e o olho esquerdo,
mais gordos lhe ficaram de repente.

Depois tinha cansaço, foi p'ra um quarto
que dava uma janella p'ra o jardim,
despio-se, tomou banho, foi deitar-se...
dormio? não sei dizer, creio que sim.

A festa terminou neste incidente
e cada um tratou de se ir deitar:
a lua ia bem alta além no ceu,
e o gallo amiudava o seu cantar.[41]

XIX

Dona Olympia ouve um gemido
partir de seus aposentos;
chegou-se á porta de manso
prestando ouvidos attentos...

Era a pobre Margarida
que entre soluços sem fim,
co'o rosto nas mãos occulto,
chorava dizendo assim:

XX

«Pelas chagas de teu filho,
pelas dôres que soffreu,
pelo pranto que verteste
quando na cruz te morreu,
valei-me, Nossa Senhora,
nesta dôr que sinto agora!

«Inda a pouco era ditosa,
tinha amor, tinha esperança,
de um momento de tristeza
não tenho a menor lembrança!
eu sorria ao ver-me assim;
meu sorrir já teve fim...[42]

«De tudo quanto já tive
que mais me resta? mais nada!
quiz provar-lhe o meu affecto
e fui vilmente insultada!
Ai, Pedro! que me mataste
quando assim me injuriaste!

«Agora que mais espero?
que esp'rança mais posso ter?
venha a morte e venha breve,
que sou feliz se morrer!
Que Deus lhe pague em prazer
o quanto me fez soffrer.»

XXI

Dona Olympia entreabrio de manso a porta,
e sem bulha chegou-se junto a ella,
tomou-lhe as mãos nas suas, vio-lhe o pranto,
beijou a meiga face da donzella...

XXII

«—Que é isto, minha louquinha?
quem é que falla em morrer?!
viste um espinho na vida
e já te cança o viver!
Nas tuas suppostas dôres[43]
só recordas-te os amores,
mas esqueceste teu pai!...
Margarida, és muito ingrata!...
queres matal-o?... pois mata!
vae pedir a morte, vae!

«Ao pobre e cançado velho
que vive do teu carinho,
em vez de beijos e abraços,
crava-lhe n'alma um espinho!
Arrufos de um namorado
valem mais que um velho honrado?!
Pensas bem, minha afilhada!..
vaes morrer? não te demores!
mas o que é isto? não chores!
que vale um pai?... quasi nada!

«—Misericordia, madrinha!
não falle assim que enlouqueço!
meu Deus! qual foi o meu crime
que tal castigo mereço?!
—Teu crime é não ter juizo....
e sabes o que é preciso?
é: pedir a Deus perdão.
Limpa esses olhos, menina!
a gente assim se amofina;
tu choras sem ter rasão![44]

«—Mas elle está mal commigo
e meu pai nem o quer ver!
—Cala a boca, te prometto
que tudo se ha-de fazer.
Socega, filha: descança,
se ainda tens confiança
na tua velha madrinha!
Amanhã em santa paz
tudo se arranja e se faz;
vae dormir, minha louquinha?»

XXIII

Margarida radiante da alegria
que sentia renascer no coração,
abraçava com transporte aquella amiga
e cobria de mil beijos sua mão.[45]

CANTO SEGUNDO