[46]
[47]I
Oh tu quem quer que sejas, meu leitor,
attende ao que te digo: a ti o auctor
começa por te dar os parabens
da somma de pachorra que tu tens,
se leste esse arremedo de poesia
sem arte, sal, perfumes e harmonia,
que p'ra ahi rabisquei sem tom nem som.
Já vejo que és rapaz prudente e bom...
desculpa o tratamento... as etiquetas
exigem luva branca e roupas pretas;
mas isto é muito bom p'ra deputados,
que vivem simplesmente de apoiados
e gastam excellencia a tres por dois...
coitados! são mal pagos... e depois
sujeitos a caprichos de ministros....
ás vezes trazem rostos tão sinistros,
que chego a ter de véras compaixão...[48]
Mas dizem que são filhos da eleição?!
a culpa é então da mãi que os deu á luz,
que tinha atraz da porta aquella cruz,
envolta n'um programma e mil projectos
p'ra os hombros dos filhotes mais dilectos!...
Sê franco, meu leitor, se estou massando,
arrólho a discussão e vou tratando
do resto d'esta historia que encetei...
Palavra, que não sei onde fiquei...
Mas... eu te escrevo em mangas de camisa;
não olhes p'ra o meu trage... quem precisa
pendura com cuidado o paletot,
depois de sacudir-lhe bem o pó,
e fica assim á fresca muito bem.
Quem poupa, meu amigo, sempre tem!
não achas que é verdade, ó maganão?
pois folgo com a tua opinião.
As cousas andam más, tudo está caro!
o cobre, santo Deus! anda tão raro!...
ao menos lá por casa é uma desgraça!
por mais que se trabalhe ou que se faça,
por mais que se amofine uma pessoa,
vem sempre a dar na mesma, é sempre á tôa,
Fallemos n'outra cousa, as digressões
arredam sempre o fio ás discussões.
Entremos na materia francamente,
vejamos o que é feito desta gente.[49]II
O dia amanheceu bastante frio.
No chão, sobre os sofás e nas cadeiras
dormiam somno solto os convidados,
em duzias de colchões e mil esteiras.
O nosso fazendeiro acordou cêdo,
e poz as cosinheiras logo em pé;
sentou-se na varanda lendo as folhas
á espera que trouxessem-lhe o café.III
«—Ora bom dia, seu Pedro!
—Bom dia, Sr. Medeiros!
—Ainda o fazia dormindo
e vejo que é dos primeiros!...
«Então estranhou a cama?
passou mal, não é verdade?
—Não, senhor! pelo contrario,
perfeitamente á vontade.[50]
«—Li agora na Gazeta
um facto bem curioso!
um sujeito, um estrangeiro...
mas que homem ardiloso!
«Engole uma espada inteira!
que barriga! Ave Maria!
—Mas é serio?—Oh! se o não fosse
a folha não o diria...
«O que é isto?! onde se atira
já de esporas? onde vai?!
—Vou... eu ia até lá embaixo.
—Não, senhor, hoje, não sahe.
«—Mas escute, seu Medeiros...
—Não escuto, não senhor;
já queria pôr-se ao fresco?
enganou-se, meu amor!
«Ó homem, 'stou te estranhando!
você que é tão pagodeiro!
—Eu ia vêr se lá embaixo
recebia hoje dinheiro...[51]
«—Qual dinheiro, qual historia!
eu bem sei o que isto é!...
Sabes que mais, pucha um banco
e vamos tomar café.
«—Já que de todo é preciso
vou lhe fallar francamente...
—Pois desembucha, rapaz,
fallando se entende a gente.IV
«—O senhor bem me conhece...
não sou homem de questões,
nem ando brigando á tôa
por qualquer duas razões;
mas hontem foi desaforo!
o sujeito de namoro
co'a minha noiva, e eu ali!
isto não é fazer pouco?...
parti cégo como um louco...
nem sei bem o que senti...
«Eu vinha de orelha em pé
ouvindo o palavreado!
não sei o que... de epitaphios...[52]
e d'ahi por um bocado,
agarrou-lhe por um braço
e quiz lhe dar um abraço,
no momento em que cheguei!
fiquei damnado da vida!
e co'a cabeça perdida,
por milagre o não matei!...
«Depois... não ouvi mais nada...
todo este povo a gritar...
ouvi o senhor fallando,
quando nos veio apartar...
mas estou incommodado
do negocio se ter dado
n'uma casa que eu respeito...
em outro qualquer logar,
não me importava brigar
até um ficar desfeito!...
«—Tudo isso nada vale!
não penses nisto, rapaz....
são cousas que a gente moça
mais ou menos sempre faz.
—Não, senhor, eu bem conheço
que isto é máu; mas o que peço
é que queira perdoar...
ás vezes lá vem um dia...
e a gente está de arrelia,
não se póde dominar...[53]
«—Vamos fallar de outra cousa,
isto é pura criançada...
que fizeste á Margarida?!
—Quando?—Hontem!—Não fiz nada!
—Pois olha, metteu-me pena
vêr a pobre da pequena
chorando, não sei porque...
—Ella chorou? mas que tinha?
—Não sei, fallou co'a madrinha
e a respeito de você.
«—A meu respeito?! e que disse?!
—Como já estavas zangado,
disseste-lhe alguma cousa...
e te excedeste um bocado...
—Eu, meu Deus?! ainda mais esta!
vejam só que bôa festa!
que S. João tenho eu!...
e tudo, veja o senhor,
por causa desse impostor,
desse barbas de judeu!
«É uma nuvem passageira...
não te dê isso cuidado;
vocês fazem logo as pazes
e está o negocio acabado.
Falla tambem co'o Simão...
o velhote tem razão[54]
de estar massado comtigo...
foste offender ao coitado,
que ficou bem magoado;
mas o velho é teu amigo.»V
Vinha chegando alguem e esta conversa
ficou neste logar interrompida;
vão pouco a pouco erguendo-se as visitas,
renova-se o prazer, renasce a vida.
Estava tudo em pé; porém o Juca?
estava ainda no quarto, ainda dormia?
«—Ó senhor! vão acordal-o, já é tarde
e basta de dormir: é meio dia.»
A mesa estava posta, e o fazendeiro,
que o não vira des que o dia amanheceu,
abre a porta e só encontra sobre a mesa
uma carta p'ra si, que abriu e leu:[55]VI
«Meu caro Sr. Medeiros:
vou p'ra côrte no trem mixto
que sahe d'aqui a uma hora.
Desculpe, se faço isto
sem lhe ter agradecido
o seu bom acolhimento;
mas pode estar convencido
de que no meu coração,
p'ra com vossa senhoria
fica eterna gratidão.
Se fôr á côrte algum dia
contar-lhe-hei como foi
a questão. Não tive a culpa;
o que lhe peço é desculpa
pelo modo desairoso,
porque saio da fazenda.
Vou bem triste e pesaroso
por causa d'essa contenda,
que não julguei provocar.
São horas de me ir embora...
recommende-me á senhora
de quem parto penhorado.
Adeus, aceite um abraço
do seu amigo e criado...
JOSÉ DE SOUZA CABAÇO.»[56]VII
Medeiros releu a carta,
dobrou-a, poz na algibeira
e disse com seus botões:
«—Ora ahi tem a brincadeira!
«Um ficou todo mordido!
o outro—todo esfolado!...
qualquer dos dois, de juizo
não tem sequer um bocado!
«Que dois malucos de força!
valha-me a Virgem e o Christo!
qual dos dois terá razão?...»
e sahio pensando nisto.[57]
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..............................VIII
E os donos da casa empenhados
em fazer a reconciliação
conversavam co'os noivos e o velho,
num cantinho do grande salão.
Houve protestos, desculpas,
suspiros, explicações;
e afinal lá se entenderam
com muito boas razões...
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..............................IX
«—Vamos p'ra mesa, senhores,
que o almoço está esfriando!
deixemos as ceremonias!
cada um vá se sentando.[58]
«Falta aqui um guardanapo...
Olympia, manda buscar...
quem quer leitão recheiado
levante um dedo p'ra o ar.X
«Senhores, disse o bom Joaquim Medeiros,
(e tudo se callou para escutar)
eu tenho uma noticia de importancia,
que quero a todos vós communicar.
«Ali minha afilhada Margarida,
se bem que me escondesse agora o rosto,
vae com Pedro, o patusco, felizardo!
casar-se p'ra meado ou fins de agosto.
«E como eu sou padrinho do casorio,
que ha de effectuar-se na fazenda,
convido a todos vós para assistirdes
ao nó que não tem pontas, nem se emenda.[59]
«E aqui o seu vigario, que é de casa,
aprompta a papellada n'um momento,
e ha de me amarrar estes pombinhos
benzendo-lhes os anneis do casamento.
«Bebamos, pois, dos noivos á saude!
Senhores, a saude é feita em pé!
Hurrah! ip! ip! hurrah! vivam os noivos!
a coisa é de virar, ip! bangué!»XI
Simão ergueu-se a custo, e commovido
fallou desta maneira aos assistentes:
«—Senhores, quando a alegria
nos afoga o coração,
não ha palavras que a digam,
falta-nos toda a expressão!
Choramos quando soffremos,
quando gosamos, sorrimos,
mas o riso não exprime
o que n'alma nós sentimos.[60]
«Assim 'stou eu; bem quizera
dizer-vos neste momento
tudo, tudo quanto sinto,
qual é o meu contentamento,
«mas não posso, porque é tanta
a minha felicidade,
que mais me parece um sonho,
que pura realidade!
«E sabeis a quem a devo?
a quem posso agradecer?
quem é que em duas palavras
me embriaga de prazer?!
«É aqui a mãi dos pobres
e o meu compadre Medeiros!
este grande coração!
a nata dos fazendeiros!
«Á saude, pois, d'aquelles
que não tem ostentação,
quando afogam na alegria
um mirrado corração!»[61]
E todos gritavam co'os copos erguidos
dos donos da casa, bebendo á saude:
«Que Deus lhes dê vida, que Deus os conserve
p'ra auxilio dos pobres, p'ra amparo á virtude.»
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Passados oito dias de prazer,
oito dias de festa e de alegria,
vão indo pouco a pouco os convidados
saudosos, p'ra o lidar de cada dia.[62]
[63]
CANTO TERCEIRO
[64]
[65]
I
Os peralvilhos da côrte,
ou cidades principaes,
todos querem ser poetas,
todos fazem madrigaes
quando estão apaixonados.
Em versos estropiados,
alguns que tem legoa e tanto,
a pobre da musa súa,
suspirando á luz da lua
em cada suspiro um canto!
Aquelles que nem a tiro
se lhes abre a cachimonia,
assignam versos roubados
com toda a sem ceremonia!
Não fazem questão de auctor...
querem provar seu amor[66]
á deidade que os inspira?
lá vão direitos á estante,
e d'ali por um instante
geme e canta a alheia lyra.
São estes os commodistas
e os que tem mais razão...
p'ra que quebrar-se a cabeça
se ha versos em profusão?!
é obra feita, é verdade:
mas escolhe-se á vontade
onde ha tanto p'ra escolher...
lá vai a amostra do panno
que um typo fez por engano,
por não ter tempo a perder:II
Oh! virgem pura de meus sonhos lindos,
lyrio mimoso dos jardins dos céus!
escuta o bardo descantando amores
louco, inspirado nesses olhos teus!
Escuta as notas que desprende a lyra
embevecida neste amor sublime;
nestes accordes, muito embora rudes,
só a verdade o meu cantar exprime.[67]
Tu és a fonte inexhaurivel, pura,
onde a minh'alma vae a fé beber,
symbolo da crença, de esperanças fóco,
livro sagrado que me ensina a crêr.
Tu és a gota matinal do orvalho
na rubra pet'la de uma flôr louçã,
limpido espelho de virtude e graça,
estrella d'alva em festival manhã.
Tenra avesinha que em gorgeios ternos
a Deus envia o suspiroso canto,
visão etherea do sonhar do bardo,
miragem bella de sublime encanto.
Tu és a lympha, que em ramaes de prata,
borda a campina marchetada em flôres,
iris formoso da bonança emblema,
casto sacrario de gentis amores.
És tudo, tudo quanto é grande e santo,
astro fulgente de brilhante luz!
Anjo da Guarda que atravez d'espinhos
meus tibios passos ao porvir conduz.[68]III
Na roça não se usa disto,
quem faz cerco a um coração
improvisa as suas quadras
com a viola na mão.
E na prima e na segunda
faz um tal repenicado,
que a pequena fica tonta
quebrando o sapateado.
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Quem procura a paz do espirito,
quem busca a felicidade,
ha de encontral-a na roça,
raras vezes na cidade.
Ali a vida é mais calma;
a mudez da solidão,
é como um balsamo santo
ás dores do coração.[69]
A doce tranquillidade,
que se desfructa no lar,
illumina aquellas almas
de uma luz crepuscular.
Na festa ha mais alegria...
ha no trato amenidade;
o homem da roça é o typo
da honra e da honestidade.
Se acaso lhes bate á porta
um estranho, um forasteiro,
tem agasalho e amizade
desse povo hospitaleiro.
Sob uma crosta grosseira
se encontra a sinceridade,
e mais que ninguem conhece
as leis da hospitalidade.
Mas se lhes offendem os brios
sabem affrontas vingar,
que o homem rude do campo
não póde insultos tragar.[70]IV
Chegara em fim o dia suspirado
daquellas duas almas, que se amavam:
em breve vão-se unir p'ra todo o sempre
no laço por que a tanto suspiravam!
Nos meigos olhos della ha mil affectos...
as faces se lhe tingem de rubor,
e os labios entreabertos côr de rosa
parecem repetir:—ventura, amor!
No rosto do mancebo ha um que de vago
e certa commoção mal disfarçada!
é que é tal a ventura que o espera
que duvida vel-a emfim realisada!V
«—Escuta, minha afilhada,
tu hoje vaes te casar...
é o passo mais delicado
que uma mulher póde dar.
A partir desse momento,[71]
do nosso procedimento
depende todo o futuro.
Escuta toda a verdade,
se queres a f'licidade,
este caminho é seguro.
«No dia do casamento
tudo é cheio de illusões!...
julgamos tocar ao termo
das nossas aspirações.
Mezes depois, vamos vendo
que já vão arrefecendo
nossos sonhos virginaes;
passada a illusão primeira,
a mulher é a companheira,
uma amiga, e nada mais.
«Então é preciso emprego
de toda a nossa prudencia,
e ter p'ra com o marido
a maior condescendencia.
Se chega em casa cansado,
dar-lhe carinhos e agrado,
não perguntar de onde vem;
elle mesmo irá dizendo
o que andou por lá fazendo,
ou se esteve com alguem.[72]
«Nunca sejas ciumenta,
nem lh'o dês a conhecer!
o ciume, além de inutil,
nos envenena o viver.
Sê sempre condescendente...
não te mostres exigente
nem lhe peças sacrificios:
um pedido caprichoso,
para um marido extremoso,
é um dos grandes supplicios.
«Sempre affavel, carinhosa,
sempre modesta e asseiada...
eis aqui como procede
a mulher bem educada.
Algumas, infelizmente,
ignoram completamente
estas verdades, e então
dizem que são desgraçadas;
mas são ellas as culpadas,
é falta de educação.
«Quando em casa não encontram
meiguices, consolações,
os maridos se aborrecem,
vão procurar distracções...
e uma vez encetado[73]
esse trilho tão errado,
é um martyrio esse viver!
Deus te livre, Margarida!
a ter semelhante vida,
melhor te fôra morrer!
«Eis aqui os meus conselhos
que sempre tenho seguido;
e de cumpril-os á risca
não me tenho arrependido.
Desde criança a meu lado,
has de ter observado
como trato teu padrinho;
e tenho sido estimada...
se queres ser adorada
faze o mesmo ao teu Pedrinho.»VI
Adornada a capricho p'ra este dia,
da fazenda a pequena capellinha
estava que era um mimo de bom gosto,
tão faceira! tão bem arranjadinha![74]
Sanefas de setim verde e amarello,
nas paredes damasco alaranjado,
alampadas de prata, quatro lustres,
e um soberbo tapete avelludado.
O todo era singelo, doce e grave,
incitava não sei que ao coração!
noss'alma sem querer a Deus se erguia
nesse encanto mental de uma oração.
Lá fóra repicava alegre o sino...
festões, arcos e flôres no terreiro,
convidados, amigos e parentes,
e sempre satisfeito o fazendeiro.VII
São horas, tudo está prompto;
todos seguem p'ra capella.
Na frente caminha ella
pelo braço da madrinha;
logo atraz Pedro, Simão,
Medeiros, uma sobrinha
do vigario, e a multidão
que caminha alegremente
em ruidosa confusão.[75]
Era um quadro interessante
de belleza original
o que eu vi naquelle instante:
cabeças brancas de neve,
rostos graves enrugados
pendidos p'ra sepultura,
a par de frontes divinas,
de olhos meigos namorados
derramando mocidade!
Oh! como é bella essa idade
em que tudo é só prazer!
em que a existencia é um sorriso,
em que o amor é um paraiso,
em que o sonhar é viver!
O grupo entrou na capella
ajoelhou-se, benzeu-se,
resou e depois ergueu-se
e cochichava em segredo;
mas callou-se de repente
quando o padre appareceu.
Margarida estremeceu
e disse machinalmente:
«Agora vou ser feliz.»[76]
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Estava emfim realisado
aquelle sonho dourado
de su'alma casta e pura!
a embriaguez da ventura
tornava-a mais que divina!
aquellas faces rosadas
levemente afogueadas
de prazer e commoção,
traziam-lhe tal encanto,
que eu creio que até um santo
succumbia á tentação!
Era finda a ceremonia.
Pedro, qu'inda não fallara,
por pouco não desmaiara
nos braços do fazendeiro,
fulminado de alegria!
e no sorriso nervoso
que d'alma aos labios lhe vinha,
quem é que não traduzia
o que n'alma o pobre tinha?
Passados alguns momentos,
já depois dos comprimentos
de todos que os rodeavam,
sahiram de braços dados[77]
sob uma chuva de flôres
que em cima lhe despejavam
á porfia, os convidados.
Chegados todos á casa,
Simão e Pedro de um lado
á meia voz conversavam.
Dizia o velho alquebrado:
«Nesta filha que te entrego,
dou-te tudo quanto tenho,
dou-te os olhos, fico cégo,
mas risonho e satisfeito...
eu já estava tão affeito
que não sei como sem elles
eu possa agora viver!...
ella era o sol bemfazejo
ao qual eu me ia aquecer;
porém fico descansado,
porque em ti achou arrimo....
eu somente o que lastimo
é ser velho e não ter nada,
não p'ra mim que não preciso,
era por ella, coitada!
que é um anjo como tu sabes.
Olha, Pedro, eu só te peço,
se alguma cousa mereço,
que trates bem minha filha!
minha pobre Margarida![78]
Ella ha de adoçar-te a vida
porque é muito carinhosa,
e como foi boa filha
deve ser tambem esposa.»
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E em quanto o velho fallava
da filha por quem vivia,
dos olhos se lhe escapava
uma baga que rolava
e na barba se escondia.VIII
«—Forma a roda! oh! seu Casusa
não fuja, vamos brincar;
vá decidir na viola
para este povo dançar.
«—Qual o que! o seu Manduca
é cabra bom tocador,
e eu não vou tirar a espada
da mão de um tal jogador.[79]
«—Vamos então ver os dois
no desafio pegados...
Forma roda! forma roda!
quero ouvir esses damnados.»IX
E emquanto sapateavam,
os dois assim descantavam:
«—Meu senhor, me dê licença
que eu quero principiar:
quero botar uma trova
para quem me faz penar.
«—Póde entrar que o matto é limpo,
não tem onça, nem queixado,
tem somente uma morena
por quem ando apaixonado.
«—Obrigado, companheiro,
Deus te ajude nos amores;
mas quem gosta das morenas
soffre penas, sente dôres.[80]
«—Eu bem sei de quem tu gostas,
p'ra ella podes cantar;
é clara, tem olhos pretos,
olhos que te hão de matar.
«—Na barra do teu vestido
anda preso um coração,
menina, minha menina,
da minha veneração.
«—O sipó do matto virgem
amarra o jacarandá;
assim, morena, em teus olhos
ando eu bem preso já.
«—Fui ao matto cortar lenha
e encontrei a jurity,
ella tinha os seus amores
como os eu tenho por ti.
«—Larangeira é pau d'espinho,
carangueijo anda na praia,
tambem andam meus amores
na renda de tua saia.[81]
«—Os teus olhos são de fogo,
tua boca é uma roseira,
menina, minha menina,
quem te fez tão feiticeira?
«—Cachorro ladra na cerca
quando vem algum ladrão,
assim ladra no meu peito
por te ver meu coração.
«—Menina, minha menina,
se me não queres matar,
dá-me um riso pequenino,
que eu sou bom de contentar.
«—No braço tenho talento,
tenho prata na goiaca,
p'ra quem duvidar, comigo
na cintura trago a faca.
«—Você me botou olhado,
você mesmo ha-de tirar,
e eu só posso ficar bom
quando comtigo casar.[82]
«—Ó senhor dono da casa,
mande vir alguma cousa;
já está co'a guella secca
o Manduca Zé de Souza.
«—Sem leitão não ha pagode,
sem bebida violeiros;
o Casusa está com sêde,
mande vir, Sr. Medeiros.»
X
«—Muito bem, muito bem! gritaram todos,
qualquer dos dois é um tebas p'ra cantar,
e dansam que faz gosto e mette inveja
a quem os vê n'um samba a requebrar.
«—Vocês que tomam? vinho ou paraty?
—Eu cá já tomei vinho e não misturo...
—E dois.—Pois aqui tem, ataquem deste,
que é bom, é de patente, é vinho puro.»[83]
Depois de beberem voltaram p'ra roda
ao som da viola, tocando e cantando,
ao longe se ouvia o tinir das chilenas,
as palmas cadentes dos moços dansando.XI
A noiva estava com somno....
o noivo.... não sei se o tinha,
mas estava assim com cara
onde logo se advinha....
vontade de se ir deitar.
A madrinha, disfarçando,
para o quarto do noivado
foi com ella, onde ajudou-lhe
a tirar o véo bordado
e a grinalda virginal.
Desapertou-lhe o vestido
e em saia branca a deixou....
baixinho deu-lhe conselhos,
depois a porta cerrou
deixando-a ficar sosinha.[84]
De repente ouviu-se um grito!
era a voz de Margarida,
e um toque de campainhas,
que prolongou-se em seguida,
indicava o quarto della.
Todos correm pressurosos,
perguntam: «Que aconteceu?»
Dona Olympia mais ligeira
do que todos, lá correu,
fechou a porta, e que viu?!
Viu na cama semeados
carrapichos aos milhões!
alfinetes espetados!
e por baixo dos colchões
campainhas penduradas!
E a pobre da menina
que se foi sentar na beira...
espetou-se não sei onde,
nem como, de que maneira
fez dobrar o carrilhão.[85]
Não pôde dormir na cama!
foi p'ra o quarto da madrinha.
O noivo tremeu com frio,
a noiva ficou sosinha
scismando.... nos carrapichos.
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Percebes, meu leitor, que eu não desejo
entrar n'alguns detalhes melindrosos;
respeito o sanctuario da familia
e deixo a indagação aos curiosos.[86]
[87]
XII
Um anno já se passou
Depois que vi estas scenas,
mas inda tenho saudades
d'aquellas boas pequenas.
Ha tres dias, por acaso,
n'um bond do Pedregulho
encontrei o seu Medeiros
que levava um grande embrulho.
«—Como vai? me disse elle,
ó homem, não apparece!
pois olhe, todo o meu povo
do senhor nunca se esquece.
«Já soube que a Margarida
teve um filho o mez passado?
—Não, senhor!—Pois é verdade!
e p'ra o mez é o baptizado!
«Não falte e leve os amigos,
porque temos brincadeira;
vim á côrte só para isto,
e ando assim desta maneira!»
E apontou-me o embrulho
que mettera sob o banco,
e nisto o maldito bond
deu um enorme solavanco.
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Leitor, se lêste attento estes meus versos,
é que és bom, condescendente e meu amigo.
Has-de ir pagodear lá na fazenda,
eu posso convidar-te: vais comigo.