«Quem se demora a ver a ladeira por onde resvalou á leiva humida um mancebo com o coração ainda a queimar-lhe a mortalha?

«Por isso as historias dos mortos se escrevem, e este livro se faz.

«É, todavia, inutil.

«A mocidade não lê d'isto para aprender. Atira-se á voragem e morre—á voragem, onde o menos que se perde é o corpo.

«O coração não se afoga debaixo da pedra onde as cinzas d'outros se desfazem. Cada qual quer sentir, em pessoa, o desfibrar-se-lhe o coração fio a fio, o esvasear-se-lhe de piedade, lagrima a lagrima.

«Depois, ao fogo das volupias infernaes, d'essa massa informe faz-se o pragal, a bruteza d'uma coisa que dá um som asperrimo de tôdo petrificado.

«Seja assim. Eu assim fui. Todos os que eu vi morrer assim foram.»{25}

[IV]

Oiçamos agora as vibrações da dôr e da saudade d'este colosso, que seria o descendente directo de Heine, se não possuisse a envergadura d'um independente:

«No principio d'este anno de 1864 sahi de Ruivães, onde por espaço de oito dias me escondi á minha estrella funesta—a vigilantissima desgraça, que eu ia esquecendo. No termo d'este prazo, estranhei o socego das minhas noites, faltou-me a mão do demonio que me arregaçava com dedos de fogo as palpebras quebrantadas do somno, e fui á procura d'elle.