«Mãe e filha vivem abarregadas com uns chanceadores lettrados da indole dos «eternos tolos» de Tertulliano.
«Aos quaes peço indulgencia, se a merecem as tortuosidades por onde me transviei, degenerando d'aquella derreada prosa com que abri esta coisa alabyrintada.
«Era meu proposito dizer espalmadamente que, ha vinte annos, comecei a ver as duas faces dos lances tristes: uma que intende com as glandulas lacrimaes, outra com o diaphragma. Primeiramente,{23} se não choro, condôo-me; depois, esgaravatando na raiz das dores humanas, encontro ahi ou sedimento de perversidade ou ridicularias miserabilissimas. Então é o rir. E, afim de que os padecentes me desculpem, rio primeiro de mim.
«D'ahi se causou que os meus livros, entre muitos defeitos, realçam em um que tem ferido a benevolencia da critica: e é que não conservo, sem intercadencias desvanecidamente faceciosas, uma situação plangente, e amarguro com o acerbo da ironia a dulcidão das lagrimas.
«É justo o reparo.
«E n'este livro me quer parecer que tal defeito subirá de ponto; porque vou intender em tragedias amorosas, n'esta edade de quarenta e tres annos feitos, velhice em que nenhum escriptor sincero, obediente a Horacio, deu aos seus leitores o exemplo das lagrimas. Si vis me flere, etc.
«D. Francisco Manuel de Mello, em annos sediços, escreveu uma Epanaphora amorosa. Succede, por isso, ao estremado estylista que faz rir a gente quando os seus personagens choram. É o providencial castigo de quem anda, fóra de sasão, á cata de flores, ou intenta com myrradas perpetuas dar fragrancia de tomilhos ao livro que resumbra o acre enjoativo do bolor.
«E d'isto me pesa; que este livro abrangerá um tristissimo caso que me fez invelhecer annos na hora em que o vi. Que profanação, se o riso me{24} antepozer os fantasmas irritados das almas insepultas!
«Creio que, ao fechar d'algumas sepulturas, se abrem livros de proveitoso doutrinamento ao de e cima d'ellas.
«Mas quem procura ahi fontes de vida?