«O riso que abate a abobada do templo sobre as ossadas dos martyres;
«O riso que revolve as tormentas dos imperios, e abysma thronos, e espuma espadanas de lama, lama com que as gerações erigem os seus marcos millenarios, as suas chronologias gloriosas.
«Oh! mas que susto não faria aos proceres que{21} regem a republica e aos sacerdotes que regem almas, o rir do demagogo e do atheu, se a cada chasco d'uns taes ruissem thronos e altares?
«Nada de medo em Portugal.
«Aqui o dardo do sarcasmo alcança apenas o scopo onde a calumnia mira. As gargalhadas, como aqui as bascolejam estas maxilas alvares dos goliardos professos, vingam mariar a honra d'um homem, desluzindo-lhe o passado, innoitando-lhe o futuro, infernando-lhe o sanctuario da familia. Isto é o mais. Receal-as todavia, como attentatorias das instituições civis ou religiosas, seria dar-lhes a honra de ridiculisarem quem as teme.
«Aqui não ha esgrima de facecia que entre dois contendores decida um pleito util. Dois homens que se medem e floreteam a remoques são dois fundibularios que se apedrejam.
«Ninguem se lembrou de inscrever algum dos nossos satyricos na pleiade dos que, rindo, castigaram. O espirito portuguez nunca espantou ninguem. A bruteza carniceira, sim. Assevera-o o douto e pio bispo Amador Arrais: «Espanta-se o mundo e tem inveja á nossa ferocidade.» Isto escreveu-se, de boa fé, no seculo XVII entre a inquisição e a pirataria portugueza no Oriente.
«Quando Rabelais e Montaigne forjavam alavancas para Voltaire—o ridente que transfigurou a Europa—nós queimavamos homens, em cujas frontes lampejassem reflexos de João de Leide ou{22} de Petrus Ramus. Quando, em França, rumorejavam os sorrisos prenuncios do terramoto social, aqui ouvia-se o mugir subterreo das masmorras d'um cruelissimo verdugo, que disputava á inquisição trevas e supplicios para centralisar a ferocia do poder em si, e esteiar o throno nos caibros da forca. Para o riso, que assombrava o dogma, acendia-se a fogueira; para o que assombrava a realeza, arvoravam-se os patibulos de Belem.
«D'ahi procedeu que portuguezes ainda teem n'alma crepusculos d'aquella grande noite. Não sabemos rir com «espirito»; apenas gargalhamos com os queixos.
«Sem embargo, implantou-se entre nós uma coisa creada pontualmente para nós. Chama-se a «chalaça», que já deu uma filha estupida como sua mãe, chamada a «laracha».